10 artigos teóricos sobre análise do comportamento para desbanalizar o banal

hipster skinner

Pesquisa conceitual, pesquisa filosófica, pesquisa histórica, levantamentos bibliográficos: não é incomum que essas diferentes modalidades de pesquisa sejam todas referidas como “pesquisa teórica”. Alguns reclamariam a distinção entre as duas primeiras, argumentando que pesquisa conceitual necessariamente lida com formulações operacionalizáveis, compromisso que, em tese, não precisaria ser assumido pela segunda, cuja função incluiria, por exemplo, discutir o próprio valor do operacionalismo para a ciência. Outros diriam que levantamentos bibliográficos não constituem, por si só, uma modalidade de pesquisa, mas apenas uma estratégia preliminar para outras pesquisas, factuais ou teóricas. E isso em diferentes ciências, sociais ou naturais.

No caso da análise do comportamento, a expressão “pesquisa teórica” poderia soar especialmente vulnerável, dada a crítica de B. F. Skinner às teorias, por exemplo. Mas foram justamente algumas pesquisas teóricas que mostraram que tal crítica endereçava uma forma específica de teoria: parece fazer pouco sentido sustentar que a análise do comportamento se oporia a construções teóricas at all (cf. Schlinger, 1992; Carrara, 1994). Independentemente da controvérsia sobre o escopo das diferentes modalidades de pesquisa teórica, estudos “do gênero” são comuns na análise do comportamento – a despeito de a ideia de “trabalho conceitual”, na psicologia em geral, encontrar resistência ainda hoje (cf. Laurenti, 2012).

Uma das funções mais importantes da investigação teórica é colocar em perspectiva aquilo que se julga incontroverso e bem estabelecido, questionar truísmos, seja denunciando inconsistências filosóficas, seja revelando a polissemia de formulações que se pretendem inequívocas ou invulneráveis à hermenêutica, seja propondo reconstruções racionais de teorias etc. No caso da pesquisa filosófica, tal função fica patente, especialmente se pensarmos a filosofia como uma forma de “desbanalização do banal” (Ghiraldelli Jr., 2008). Antenado com essa proposta de definição da filosofia, listo abaixo 10 artigos teóricos (talvez melhor classificados como “pesquisas filosóficas”?), de autores brasileiros, que considero exemplares para a desbanalização de temas importantes na análise do comportamento:

  • O comportamento tem causas?

Se a pergunta lhe soou absurda, eis o primeiro motivo para que você leia esse artigo dos professores Carlos Lopes e Carolina Laurenti. Se toda explicação envolvesse “busca de causas”, não seria redundância falar em “explicação causal”? Seria possível uma “explicação não-causal” do comportamento?

  • Sobre um importante limite da razão

Se “não existem histórias comportamentais melhores ou piores – existem apenas histórias”, ainda assim seria possível apelar à razão para tentar justificar valores? A instigante reflexão do professor Alexandre Dittrich merece ser lida na íntegra, aqui.

  • Da (in)dependência das ideias de Skinner sobre a ciência e a moral

Não é incomum que haja confusão entre a filosofia da ciência e a filosofia moral propostas por B. F. Skinner. Mas será que uma implica a outra? Confira aqui o que escreveram os professores Diego Zilio e Kester Carrara sobre esse problema.

  • Sobre “skinnerianismo”

Ainda na linha do artigo anterior, sobre a devoção às ideias de B. F. Skinner, o professor Julio de Rose publicou uma memorável reflexão a respeito. O que diria Skinner ao ver sua filosofia eventualmente transformada em doutrina?

  • É possível falar em “mente” no comportamentalismo radical?

A ideia de que o comportamentalismo radical ignora a mente é possivelmente uma das principais responsáveis pela rejeição prematura a essa filosofia. Algumas vezes por culpa nossa: à parte as críticas legítimas, não raro batemos em espantalhos quando criticamos o tal “mentalismo”. Por essa e por outras, mais que nunca esse artigo dos professores Carlos Lopes e José Abib vem a calhar.

  • Foucault + Skinner, ou, “como causar nas aulas de psicologia institucional”

Essa não é uma interlocução nada óbvia, especialmente se considerarmos a crítica de Foucault ao poder instituído, e os diversos momentos em que B. F. Skinner defendeu a ideia de planejamento cultural (especialmente a forma como se daria tal planejamento). Não obstante, o professor Celso Pereira de Sá apresentou uma análise original e interessantíssima sobre como esses dois autores parecem ter mais em comum do que se imagina.

  • Porque o abandono do “eu-iniciador” não significa a abolição da liberdade

O problema da liberdade é, a um só tempo, um dos mais centrais e controversos na análise do comportamento. A crítica à noção de agência implica a abolição da possibilidade de autogoverno? Abolido o “eu-iniciador”, estariam também abolidas as noções de deliberação e liberdade? Camila Muchon, Carmen Bandini e Naiene Pimentel endereçam questões como essas nesse texto.

  • Para não falar mais bobagem sobre operacionalismo

A crítica de Skinner ao operacionalismo, dadas as suas relações com o positivismo lógico, é frequentemente menos lembrada do que seu elogio e defesa de uma versão de operacionalismo consistente com o comportamentalismo radical. Num artigo bastante esclarecedor, o professor Luís Henrique Dutra explora as relações entre comportamentalismo e operacionalismo.

  • Indeterminismo: a menina-dos-olhos questionada

Mais de uma vez B. F. Skinner reivindicou o determinismo como cláusula de cientificidade. Efeito disso ou não, ainda hoje o determinismo é reconhecido por muitos como característica inextirpável da análise do comportamento. Não obstante, há algumas décadas, diferentes autores questionam a interpretação determinista da análise do comportamento. Esse texto da professora Carolina Laurenti é uma ótima introdução ao dissenso.

  • Pós-modernismo, ou, “não faltava mais nada!”

Esse é para quem gosta de mexer no vespeiro! E olha que o professor Abib focou em três aspectos menos polêmicos do discurso pós-moderno (pragmatismo epistemológico, anti-representacionismo e fim das metanarrativas). Um texto pioneiro, que abriu as portas para um diálogo (infelizmente) ainda pouco explorado.

Boa leitura! 🙂

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