Identidade: 2) memória

A_persistencia_da_memoria_1931

A Persistência da Memória (Dalí, 1931)

“Mas desde que os fatos que eu, então, deveria recordar teriam sido motivados apenas pela memória voluntária, a memória do intelecto, e desde que as imagens que nos mostra esse tipo de memória, que parece ser do passado, nada têm do próprio passado, eu nunca deveria ter qualquer desejo de refletir sobre esse resíduo de Combray. Tudo aquilo, de fato, estava morto para mim. Permanentemente morto? Muito possivelmente. […]       Assim é com o nosso passado. É trabalho perdido procurar evocá-lo; todos os esforços de nossa inteligência são inúteis. Ele está escondido fora de seu domínio e de seu alcance…” (Proust, 1992/1913, pp. 59-60)

A centralidade da memória sobre a noção de identidade atravessa diferentes concepções da mesma. Não causa estranheza o discurso segundo o qual nada mais somos que uma coleção mais ou menos ordenada de recordações. Do ponto de vista tradicional, a memória funciona como uma biblioteca, na qual nossas experiências são prontamente catalogadas em sessões específicas. O ato de recordar envolveria o acesso a informações previamente “registradas” em nossa mente. Com o advento da psicologia cognitiva e a metáfora do cérebro como computador, essa perspectiva ganhou ainda mais força, e é provavelmente a mais propagada no senso comum.

Apesar disso, no meio acadêmico e científico essa abordagem está longe de ser consensual. Há mais de meio século behavioristas se opõem a ela, e, mais recentemente, muitos psicólogos cognitivistas também têm produzido dados experimentais que a desafiam. Dentre os cognitivistas dissidentes do dogma do armazenamento, o nome de Elizabeth Loftus merece destaque. Iniciando com delineamentos muito simples, Loftus têm demonstrado, evidência após evidência, a natureza dinâmica da memória, e como o processo de “recordar-se” é sensível ao controle pelo contexto.

O modo como alguém é solicitado e descrever uma experiência passada pode ser decisivo para o modo como tal experiência será recordada. Mesmo a opção por artigos definidos ou indefinidos na construção de uma sentença interrogativa é capaz de direcionar a lembrança. Esses achados levaram Loftus a questionar modelos tradicionais de psicoterapia, que orbitam a ideia de que “memórias reprimidas” são a causa primeira de muitos transtornos. Polêmica: técnicas comumente empregadas nesse modelo de terapia poderiam produzir falsas memórias, o que, às vezes, pode ter conseqüências desastrosas.

Em uma palestra do TED, ela comenta dados e possíveis extensões:

 

Essa “redescoberta” cognitiva sobre a natureza dinâmica da memória, liderada por cientistas como Loftus, irresistivelmente nos remete ao behaviorismo e à obra de B. F. Skinner. Memória é possivelmente um dos temas sobre os quais as divergências entre cognitivismo e comportamentalismo se tornaram mais salientes. Já em 1974, Skinner tratava do tema em seu “Sobre o behaviorismo”:

“Numa análise comportamental, a acessibilidade é substituída pela probabilidade. As contingências que afetam um organismo não são armazenadas por ele. Elas nunca estão dentro da pele; simplesmente o modificam. […] As técnicas de rememoração não estão relacionadas com buscar no depósito da memória, mas com aumentar a probabilidade de respostas. Os meios mnemônicos são comportamentos pré-aprendidos, ou facilmente aprendidos, que incitam ou fortalecem o comportamento a ser recordado. Se esquecemos a parte seguinte de uma peça musical que estejamos tocando ou de um poema que estejamos recitando, voltamos ao começo, não porque o poema ou a música tenham sido armazenados como uma unidade de memória, de forma a uma parte auxiliar-nos a encontrar a outra, mas pelo fato de a estimulação extra que geramos ao recomeçar ser suficiente para evocar a passagem esquecida.  […] Incidentalmente, não é o behaviorista, mas o psicólogo cognitivista, com o seu modelo de mente à imagem do computador, que representa o homem como uma máquina.” (Skinner, 1974, pp.121-122)

A discussão acerca da natureza da memória parece fundamental para reflexões sobre a identidade humana. Quando falamos sobre nós mesmos, e construímos nosso discurso sobre uma composição de reminiscências, quantas de nossas memórias não são falsas? Solicitados a descrever quem somos, não acessamos “registros” constituintes de uma essência inviolável. Respondemos sob controle de contingências históricas e coevas, cujas regularidades e idiossincrasias estabelecem aquilo que reconhecemos como “individualidade”.

Se, por um lado, uma concepção dinâmica de memória pode soar desconcertante ao revelar a imprecisão e parcialidade de nossas lembranças, por outro pode soar libertadora, ao destacar a origem social do autoconhecimento (uma visão emancipatória por ampliar o poder de contracontrole, segundo behavioristas), e a ideia de que o conhecimento sobre nossa própria identidade talvez não passe de uma forma de autocriação (como insistem pragmatistas).

 

Referência:

Proust, M. (1992) In Search of Lost Time, Volume I: Swann’s Way. New York: The Modern Library. Original publicado em 1913.

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism. New York: Alfred A. Knopf.

 

Leitura recomendada:

O capítulo Memória sob a ótica analítico comportamental, de Natalia Maria Aggio, André Augusto Borges Varella, Marcelo Vitor da Silveira, Viviane Verdu Rico e Julio Cesar Coelho de Rose, disponível aqui.

Um post do Boletim Behaviorista, sobre o mesmo tema.