Identidade: 1) contingência

Dr-Jekyll-y-Mr-Hyde

“A cada dia, e por ambos os lados de minha inteligência, o moral e o intelectual, eu era, assim, atraído firmemente para mais perto daquela verdade cuja descoberta parcialmente condenou a um tão terrível desastre: a de que o ser humano não é realmente um só, e sim, na verdade, dois. Digo dois porque o estágio do meu próprio conhecimento não vai além deste ponto. Outros virão, outros irão me superar no mesmo sentido; eu arrisco a hipótese de que o homem será, em última análise, conhecido como um simples estado formado por múltiplos, incongruentes e independentes habitantes.” (Stevenson, 1886, p. 74)

O trecho supracitado provém de “O médico e o monstro”, de Robert Louis Stevenson (1850-1894), que conta a história do Dr. Henry Jekyll e seus percalços. A narrativa é especialmente inspiradora para reflexões sobre a noção de identidade, e particularmente interessante a uma concepção comportamental dela. Afinado com a filosofia do pragmatismo, o behaviorismo radical oferece uma visão contingencial da identidade. A título de ilustração, nesse post mencionarei brevemente excertos ilustrativos. Posteriormente no blog, comentarei sobre dois outros aspectos frequentemente evocados quando o tema volta à baila: a centralidade da memória para a identidade humana, e aquilo que ficou conhecido noutras tradições psicológicas como “enantiodromia”.

De um ponto de vista pragmatista, o “eu” pode ser concebido como um “centro gravitacional de narrativas” (Rorty, 2007), e, por isso, “o processo de vir a conhecer a si mesmo, de confrontar as próprias contingências, rastrear as próprias causas, é idêntico ao processo de inventar novas linguagens – isto é, de elaborar novas metáforas” (Rorty, 1989, p. 27). E ao substituir as metáforas da descoberta pelas metáforas da criação, pragmatistas insistem que “não há nada dentro, no fundo, de nós mesmos, exceto o que nós mesmos colocamos lá.” (Rorty, 1982, p. XLIII)

Isso pode ser combinado com uma interpretação comportamental. De acordo com Skinner (1989), o termo “pessoa deriva da palavra usada para designar as máscaras com as quais os atores recitavam seus papéis nos teatros grego e romano. A máscara identificava o papel que o ator desempenhava; ela o marcava como um personagem. Usando diferentes máscaras, ele podia desempenhar diferentes papéis. As contingências de reforçamento operante têm efeitos muito semelhantes. A partir do organismo que se desenvolveu através da seleção natural, elas constroem os repertórios comportamentais chamados pessoas. Diferentes contingências constroem diferentes pessoas, possivelmente dentro da mesma pele, como o demonstram os clássicos exemplos de personalidades múltiplas.”

As narrativas apontadas por Rorty como constitutivas do conceito que as pessoas têm de si mesmas talvez possam ser “traduzidas” como a redescrição da história operante que as produziu. A metáfora das máscaras mencionada por Skinner é interessante, mas exige cuidado: não é como se usássemos máscaras para emular diferentes ‘eus’ e proteger uma personalidade, um fantasma dentro da máquina, que permanece incólume às variações ambientais. Somos as diferentes máscaras, erigidas em função de contingências que exigem variedade, e cuja identidade só persiste em função de uma história idiossincrática e de uma permanência relativa do ambiente. As origens da múltipla personalidade possivelmente encontram parte de sua explicação na instabilidade dessas instâncias.

A alguns, essa visão parecerá aflitiva, por desconstruir a fantasia de uma alma ou mente, cuja essência persiste intacta independentemente das experiências no mundo sensível. Pessoalmente, eu a considero libertária: antes de lamentarmos por saudade ou pela falta que sentimos de alguém (talvez alguém que um dia fomos), convém lembrar que talvez sintamos falta de alguém que provavelmente não existe mais, e que talvez só tenha existido em circunstâncias passadas muito específicas. Se tratando de nós mesmos, construímos e reconstruímos nossa própria identidade por meio da redescrição. A chave está em nossa relação com o ambiente, e em como a descrevemos, e não numa fórmula mágica, como a criada por Jekyll a fim de isolar os “bons” aspectos de sua identidade. Conhecer(-se) implica (se) redescrever, e não (se) “descobrir”.
Referências:

Rorty, R. (1982). Consequences of pragmatism. Minneapolis: University of Minessota Press.

Rorty, R. (1989). Contingency, irony, and solidarity. Cambridge: Cambridge University Press.

Rorty, R. (2007). Philosophy as cultural politics: Philosophical papers IV. Cambridge: Cambridge University Press.

Skinner, B. F. (1989). Recent issues in the analysis of behavior. Columbus, OH: Merrill.

Stevenson. R. L. (1886). The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde. Planet Ebook.