Morte e vida behaviorista

“— E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?”

João Cabral de Melo Neto, “Morte e Vida Severina”

De tempos em tempos o obituário do Behaviorismo Radical é (re)escrito. Ora gratuitamente, ora em função de confusão entre as diversas versões de behaviorismo, ora com menção a algum marco histórico (como a suposta “revolução cognitiva” na psicologia) etc. O anúncio da morte de qualquer filosofia merece um diagnóstico cuidadoso que o preceda: filosofias têm fôlego de gato. Muitas previamente dadas como mortas ressurgem inesperadamente. Mas quando o diagnóstico provém de epígonos do próprio sistema, há boas razões para a preocupação.

Na última sexta-feira, dia 4 de Abril de 2014, foi realizado no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo o I EEBA – Encontro de Estudantes Brasileiros de Análise do Comportamento. A vida e a morte do Behaviorismo Radical foram tema presente durante praticamente todo o evento. Mas invertendo expectativas, o que mais chamou a atenção foi que em vez de enumerar as tantas injustiças das quais o behaviorismo têm sido vítima, o discurso tendeu muito mais à autocrítica (construtiva). Conquanto alguns discordassem sobre a vitalidade ou o óbito da “filosofia da ciência do comportamento”, parecia ser consensual a apreensão relativa à sua sobrevivência como prática cultural.

Antevendo esse quadro, convidamos Saulo Velasco a proferir a palestra de abertura. O tema: “Análise do Comportamento e Cultura”.*

saulo

Em seguida, Marcela Ortolan, Leonardo Cheffer e Dafne Oliveira, debatidos por Roberto Alves Banaco, compuseram o simpósio “Análise do Comportamento onde você nunca a viu”. Na pauta (bastante diversa): prevenção de acidentes aeronáuticos, luto e a atuação no Sistema Único de Assistência Social. simp1

Na mesa-redonda sobre “Ensino de Análise do Comportamento” (debatida por Marcelo Benvenuti), Thomas Woelz, Felipe Epaminondas e eu problematizamos alguns aspectos relativos ao modo como a filosofia e a ciência do comportamento, do laboratório à aplicação, surgem em sala de aula.

mesa1

Após o intervalo para o almoço, Ângelo Sampaio debateu o simpósio “Análise do Comportamento para além da Psicologia”, em que Ana Carolina Trousdell Franceschini (economista), Carlos Eduardo Tavares (biólogo) e Ricardo Tiosso Panassiol (bacharel em direito) expuseram possibilidades de aplicações da análise comportamental em suas primeiras áreas de formação.

simp2

“Reflexões sobre Análise do Comportamento e sociedade” foi o título da mesa debatida por Luana Flor, na qual proferiram falas Júlia Fink, que apresentou um “estado da arte” de publicações sobre questões sociais na Análise do Comportamento, Leandro Fazzano, que conduziu uma reflexão sobre homofobia, e Emanuelle Castaldelli, que propôs pensar o feminismo à luz do modelo de seleção pelas conseqüências.

mesa2

Finalmente, Maria Amália Pie Abib Andery proferiu a conferência de encerramento: “40 anos depois: servirão os princípios comportamentais para os revolucionários?”. Recuperando os argumentos de James Holland, autor do polêmico texto publicado há quatro décadas, a professora destacou aspectos atuais e obsoletos daquele discurso, sugerindo quais poderiam, ou deveriam, ser mantidos ou abandonados. Durante o debate, foi lançada a provocação: em certo sentido, o behaviorismo estaria morto. Amália alertou-nos para a necessidade de “repaginar o behaviorismo, para que ele sobreviva no século XXI”. Parte da versão do behaviorismo presente no texto de Holland é que estaria morta, no sentido de ser obsoleta para o mundo contemporâneo. Por outro lado, os aspectos ainda atuais do discurso de Holland podem indicar pistas preciosas para aqueles interessados em fazer do behaviorismo uma filosofia viva.

amalia

Desde o fim do encontro, a seguinte questão tem ressoado: se o behaviorismo em certo sentido estaria morto, será que morreu de morte matada ou de morte morrida? Ataques de adversários nunca faltarão: a “morte matada” sempre estará à espreita. Mas se sobrevivemos até aqui, talvez não devamos temer essa ameaça tanto quanto deveríamos temer uma outra. Essa outra ameaça é a “morte morrida”, a morte que não requer matador: é a morte final e definitiva de uma filosofia que definha e aniquila a si mesma pela ausência de autocrítica. Por isso o frequente tom de autocrítica do I EEBA** me deixou tão feliz quanto expressa a interjeição de sua sigla. Há esperança! Não precisamos temer a morte de certos aspectos de nossa filosofia, desde que estejamos dispostos a reanimá-la e reformulá-la sempre que preciso, eternamente. Cabe a nós alterar o “certo sentido” em que estaria morto o behaviorismo, antenados com o alerta:

“O behaviorismo, como nós o conhecemos, finalmente morrerá – não porque é um fracasso, mas porque é um sucesso. Como uma filosofia crítica da ciência, ele necessariamente mudará à medida que uma ciência do comportamento for mudando e as questões atuais que definem o behaviorismo forem sendo totalmente resolvidas.” (Skinner, 1969, p. 267)

*Fotos por Henrique Avello.

**A quem possa interessar, segue o vídeo do evento:

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