Prometeu, Fausto e o anjo do progresso na pós-modernidade

“Estamos a doze anos do final do século XX. Vivemos num tempo atônito que ao debruçar-se sobre si próprio descobre que os seus pés são um cruzamento de sombras, sombras que vêm do passado que ora pensamos já não sermos, ora pensamos não termos ainda deixado de ser, sombras que vêm do futuro que ora pensamos já sermos, ora pensamos nunca virmos a ser.”

Desse modo o sociólogo português Boaventura de Souza Santos inaugurou o seu “Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna”. Sua proposta é de que somente a superação do paradigma científico moderno poderia produzir um “conhecimento prudente para uma vida decente”. Para ele, “a natureza da revolução científica que atravessamos é estruturalmente diferente da que ocorreu no século XVI. Sendo uma revolução científica que ocorre numa sociedade ela própria revolucionada pela ciência, o paradigma a emergir dela não pode ser apenas um paradigma científico (o paradigma de um conhecimento prudente), tem de ser também um paradigma social (o paradigma de uma vida decente).” (Santos, 1988, p. 60)

A emergência do novo paradigma científico se pautaria por, pelo menos, quatro teses: 1) Todo o conhecimento científico-natural é científico-social, 2) Todo o conhecimento é local e total, 3) Todo o conhecimento é autoconhecimento, e 4) Todo o conhecimento científico visa constituir-se num novo senso comum. O reconhecimento de que a dicotomia entre ciência humanas e naturais é frágil, se não impossível, bem como de que o avanço pela ultra-especialização em detrimento da amplitude não é cláusula necessária de cientificidade, favorece o caráter integrativo (entre humanidades e ciências naturais) e holista do paradigma pós-moderno. A ideia de conhecimento como autoconhecimento alerta para os limites impostos pelos vieses pessoais, o que é traço necessário mas não suficiente da caracterização do discurso pós-moderno, posto que o mesmo alerta jaz presente desde a doutrina dos ídolos de Bacon. Finalmente, Santos conclui que “a ciência pós-moderna, ao sensocomunizar-se, não despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que, tal como o conhecimento se deve traduzir em autoconhecimento, o desenvolvimento tecnológico deve traduzir-se em sabedoria de vida.”

Quase 30 anos após a publicação do discurso de Boaventura, por que ainda é tão importante reiterar suas colocações? Porque mesmo após o esforço de tantos filósofos da ciência no século XX, o cientificismo distintivo da ciência moderna, que têm fôlego de gato, continua vivo e bem, na academia e fora dela. Por cientificismo me refiro à ideia que de que ao discurso científico seja outorgado um status privilegiado em relação a demais formas de conhecimento. Uma vez compreendidas como meras ferramentas de satisfação de desejos, nenhuma dessas áreas se encontra invariavelmente em posição privilegiada. Se, por outro lado, reconhecermos na ciência uma matriz discursiva privilegiada , talvez estejamos mais propensos a crer que decisões diversas, como as relativas à ética e política, devam recorrer à ela como um tribunal.

Quais seriam as conseqüências disso? Alguns diriam que aí residem as melhores esperanças de produzir um mundo melhor. O progresso humano encabeçado pela racionalidade científica seria o caminho óbvio: só ele poderia nos livrar de absurdos, como os instaurados por regimes teocráticos, por exemplo. Mas os idólatras da ciência parecem se esquecer, advertidamente ou não, de como o mesmo louvado método científico já fora outrora muito usado para ratificar crenças hoje sabidamente absurdas. Olhando em retrospecto, hoje sabemos a que(m) serviu o tão amparado pela ciência “mito da raça”. Aos que acreditam que essa é uma realidade distante, e que atingimos um ponto em que a ciência deve ter superado as amarras ideológicas, sugiro que confiram obras como “The Bell Curve”, uma análise de medidas de inteligência entre diferentes “raças” e classes sociais. Sugiro, ao lado disso, a leitura da análise crítica de tal obra, efetuada pelas professoras Tereza Sério e Maria Amália Andery, que revela não apenas os embaraços metodológicos, mas principalmente a face ideológica da obra.

Mas muitos autores que reconhecem a face ideológica do conhecimento científico, ao lado de outras críticas candentes do pós-modernismo, não se consideram “pós-modernos”. Ao contrário: muitos atacam o projeto pós-moderno com veemência. Talvez porque a crítica pós-moderna é muita vezes vista como uma tentativa de sabotagem da ciência. Se toda ciência é ideológica, deveríamos interromper a empresa científica? Apesar de críticos se esforçarem para propagar que a posição dos autores pós-modernos é essa, não é. O discurso de Boaventura é um dentre tantos a reconhecer as mudanças sofridas pelo paradigma moderno, mas principalmente é um discurso sobre como a ciência pode sobreviver a tal crise. Contudo, em vez de direcionarem suas críticas a discursos parcimoniosos como o de Boaventura, autores como Richard Dawkins atacam o projeto pós-moderno mirando lunáticos que só veriam opressão, racismo, misoginia e coisas afins no texto científico moderno, como se esses fossem os prógonos da pós-modernidade. Pq será?

Reflexões sobre a ciência no contexto moderno/pós-moderno são decisivas para o debate sobre as relações entre ciência, tecnologia e política. O também português Hermínio Martins, num ensaio sobre filosofia e sociologia da técnica, se vale das figura mitológicas de Prometeu e Fausto para ilustrar duas tendências trilhadas pela tecnociência:

Abreviadamente, a tradição Prometeica liga o domínio técnico da natureza a fins humanos e sobretudo ao bem humano, à emancipação da espécie inteira e, em particular, das “classes mais numerosas e pobres” … A tradição Fáustica esforça-se por desmascarar os argumentos Prometéicos, quer subscrevendo, quer procurando ultrapassar (sem solução clara e inequívoca) o niilismo tecnológico, condição pela qual a técnica não serve qualquer objetivo humano para além de sua própria expressão. (Martins, 1996, pp. 200-201)

Prometeu, segundo a narrativa de Ésquilo, roubou o fogo divino (símbolo máximo da racionalidade) e ofereceu-o à humanidade, que só então pôde prosperar.

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“Apoderei-me do fogo, em sua fonte primitiva; ocultei-o no cabo de uma férula, e ele tornou-se para os homens a fonte de todas as artes e um recurso fecundo…” (Ésquilo, em “Prometeu acorrentado”, +ou- 450 a.C.)

Fausto, figura popularizada principalmente pelo romance homônimo de Goethe, vendeu a alma ao demônio Mefistófeles em troca de uma potência extraordinária, que culminou em sua ruína.

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“Quanta ciência em mente de homem cabe toda em balde juntei; por mais que explore, força nenhuma se criou cá dentro; não cresci a grossura de um cabelo, e em nada do infinito estou mais perto.” (Goethe, em “Fausto”, 1808)

Ambos os ensaios, o de Boaventura e o de Hermínio Martins, merecem ser lidos na íntegra, por isso não entrarei em maiores detalhes. São importantes porque, me parece, tentam lançar alguma luz sobre tendências contemporâneas da ciência e da técnica que talvez só possam ser melhor abordadas no futuro, quando as observamos de longe, retrospectivamente. Não obstante, parece ser imperativo que tentemos compreendê-las hoje, por mais nebulosas e incertas que nossas possibilidades de avaliá-las possam ser. Afinal, não temos a oportunidade de interromper o fluxo da história para refletir sobre tomadas de decisões (científicas, tecnológicas, políticas etc.), como bem observou Walter Benjamin. A despeito de discordar dele e de seu grupo em muitas posições, tenho exercitado o contato com textos de pensadores “estranhos”, buscando aproveitar o que possam oferecer. Ainda que alguns apenas sirvam para reiterar minhas críticas, procuro ~não jogar a água do banho com o bebê dentro~, e no caso de Benjamin, um apontamento sobre o progresso expresso na apreciação de um quadro de Paul Klee me soou particularmente interessante. Permitam-me encerrar com ele:

“Há um quadro de Paul Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.”

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 Angelus Novus (Paul Klee, 1920)

Referências fundamentais:

Martins, Hermínio. (1997). Tecnologia, modernidade e política. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, (40-41), 279-322.

Santos, Boaventura de Sousa. (1988). Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna. Estudos Avançados2(2), 46-71.