Variedade epistemológica: a força ou a fraqueza da psicologia?

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“Psicologia” ou “psicologias”: que flexão melhor representa a ciência psicológica? Graduandos em psicologia(s) não raro se surpreendem quando, ao iniciar seus estudos, se deparam com uma ampla variedade de linhas teóricas. Não é um assunto muito popular no senso comum: quando se fala em psicologia no Brasil, ainda hoje é comum a menção imediata a um grande autor, como Sigmund Freud (dada a popularidade que a teoria psicanalítica alcançou em nossas latitudes). Poucos têm ideia da quantidade de sistemas psicológicos existentes, e de como tais sistemas encerram modelos explicativos divergentes e incompatíveis, e não complementares, acerca do fenômeno psicológico.

A variedade da psicologia é, por alguns, apontada como a fraqueza dessa área de conhecimento. Epistemologias unitárias, como aquela proposta por Thomas Kuhn, encorajam esse tipo de leitura. Segundo esse ponto de vista, toda a história da psicologia acumulada até então não seria uma história da ciência psicológica, mas sim “pré-história” de um campo ainda mero candidato à condição de ciência. A coexistência de sistemas explicativos, segundo Kuhn, é comum em períodos anteriores ao estabelecimento da ciência legítima, ou, para empregar corretamente o termo kuhniano, “ciência normal”.

A convicção de que a variedade do campo psicológico é indício de sua fraqueza patrocina muitas disputas acadêmicas, em que se enfrentam os que crêem na importância do estabelecimento de sua abordagem como paradigma. Mais que demonstrar as possibilidades trazidas pela sua teoria de preferência, alguns insistem no ataque à diversidade, celebrando a unidade da psicologia desde que seu lado seja o vencedor no embate pela hegemonia. Em alguns contextos, o dogmatismo é tamanho que chega a extrapolar o ambiente acadêmico, criando animosidade e dificultando um intercâmbio de ideias civilizado. Isso reflete bem o que William James escreveu acerca do “temperamento rigorista”, e “por vezes convulsivo”, dos dogmáticos.

Mas se o dogmatismo é indesejável, o ecletismo extremado tampouco representa alternativa razoável. No limite, como critica a professora Carolina Laurenti (2012, p. 180), “…a escolha da abordagem psicológica parece circunscrita ao problema local. Sem fazer justiça à complexidade das teorias, podemos imaginar o seguinte quadro: se a demanda é por uma solução rápida de problemas, usa-se a teoria comportamentalista, já que é “superficial, atendo-se apenas ao sintoma”; mas se o problema é mais “profundo”, vale a pena recorrer à Psicanálise, ou, talvez, à psicologia fenomenológica. Se o problema é de aprendizagem, emprega-se um pouco da teoria piagetiana; se, além disso, a dificuldade demandar alguma análise social, uma “pitada” de teoria histórico-cultural parece ser uma boa medida; e, assim vai sendo cosida a colcha de retalhos da Psicologia.”

Seria possível algum equilíbrio entre o dogma de uma epistemologia unitária e a irresponsabilidade de um ecletismo extremado? O pragmatismo, uma vez mais, desponta como uma solução interessante. É curioso como muitos o invocam em vias de afirmar a importância de estabelecer uma unidade normativa na psicologia: o critério pragmático de verdade (a efetividade) poderia ser usado para filtrar da desordenada pluralidade psicológica um modelo que se mostrasse mais efetivo que os demais. Mas essa é uma apropriação extremamente parcial e deturpadora do pragmatismo, que se revela (em James, Dewey, Rorty e outros) uma filosofia do plural, e não do singular.

A “efetividade” no pragmatismo tem a ver com o alcance de certos fins. Uma teoria é verdadeira na medida em que é efetiva para a resolução de uma gama de problemas práticos. Mas cada teoria não só pode prescrever diferentes problemas como os mais importantes a serem solucionados, como também pode sugerir diferentes índices de efetividade. Se o mundo é “pelo menos um sujeito de discurso”, como defendeu James, a variedade de abordagens psicológicas reflete a variedade dos discursos possíveis sobre o mundo. A variedade, “para além do bem e do mal”, não seria censurável, tampouco louvável: seria apenas uma constatação inevitável.

Contudo, se por um lado tal variedade é concebida como fraqueza, não poderia, por outro, de algum modo ser defendida como a força da psicologia? Sobre isso, arrisco a seguinte sugestão: coexistindo de modo virtuoso, diferentes teorias desafiam umas às outras, exigindo explicações e intervenções cada vez mais ousadas. A popularidade da interpretação psicodinâmica sobre alguns fenômenos subjetivos desafia outros sistemas a formular interpretações igualmente interessantes; o sucesso de terapias comportamentais na clínica de diversas psicopatologias desafia outras a produzirem resultados “análogos”; descobertas experimentais da neurociência cognitiva desafiam demais abordagens a formular e reformular algumas de suas explicações; e assim por diante.

Também quando discutimos práticas culturais, como as relativas à(s) psicologia(s), as leis da variação e seleção parecem se aplicar adequadamente. A seleção precisa de alguma variabilidade prévia sobre a qual possa operar, e o efeito seletivo é sempre paradoxal, em alguma medida: há de haver espaço para alguma variedade no produto selecionado, ou o próprio processo evolutivo se coloca em risco. Em suma, de um ponto de vista pragmatista e evolucionista, se fosse preciso optar entre “força” ou “fraqueza” como um epíteto adequado à variedade de abordagens da psicologia, eu certamente ficaria com a primeira opção.

Faço isso convencido de que é a opção mais congruente com o ponto de vista filosófico do pragmatismo, que, mais que um método ou um critério de verdade, é uma visão de mundo. Uma compreensão ampla dessa filosofia, da qual James é um dos epígonos, pode informar e ajudar a esclarecer debates contemporâneos sobre epistemologia da psicologia. Assim, encerro com, e subscrevo a, uma observação do professor Arthur Arruda Leal Ferreira (2010, p. 190): “…de modo muito distinto da versão instrumental com que o pragmatismo se consagrou na psicologia, o que se busca retomar com James na atualidade é a possibilidade de uma concepção da psicologia que recuse qualquer operação normativa em nome de uma universalidade científica. Pois, entendida dentro de um processo de construção de conhecimento e de subjetividades, sua atuação seria por excelência ampliar (e não reduzir) o número de versões com que nos constituímos. Problematizando as formas de vida mais consagradas em que nos agarramos e liberando outras possibilidades menos correntes. Caminhando não na direção de uma universalidade, mas de um pluriverso de modos de existência. Nada mais pragmático.”

 

Referências:

FERREIRA, A. A. L. . O pragmatismo jamesiano e a psicologia: de uma relação histórica a uma ferramenta atual. Cognitio-Estudos (PUC-SP. Online), v. 7, p. 185-190, 2010.

Disponível em: http://revistas.pucsp.br/index.php/cognitio/article/viewFile/3480/3012

LAURENTI, C. . Trabalho conceitual em psicologia: pesquisa ou perfumaria? 2012 (Editorial para Revista Psicologia em Estudo (abr./jun., vol. 17, n. 2, p. 179-181)

Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722012000200001

P.S.: para quem quiser se aprofundar nesse debate, sugiro o seguinte o artigo “Epistemologia pluralizada e história da psicologia”,  do sempre excelente professor José Antônio Damásio Abib: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1678-31662009000200002&script=sci_arttext

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