Dos demônios de Loudun à “histeria coletiva”

em cena

Há algumas semanas, fui procurado pela jornalista Mariana Dorigatti para uma entrevista. Ela preparava uma matéria sobre “histeria coletiva” para a Revista Em Cena, do sindicato de saúde de Campinas e região (que pode ser acessada aqui). Como de praxe, poucos excertos foram à edição final, por isso divulgo aqui a entrevista na íntegra:

– Resumidamente, o que é o behaviorismo na psicologia?

Behaviorismo Radical é a filosofia que embasa a Análise do Comportamento, ciência e proposta de psicologia que adota um modelo de variação e seleção para a explicação do comportamento. Partimos do pressuposto de que o comportamento humano é produto da confluência de variáveis filogenéticas, ontogenéticas e culturais. É uma proposta diferente de muitas formulações tradicionais, que tendem à “busca de causas iniciais”: voltando atenção às consequências, procuramos identificar relações de interdependência funcional entre eventos ambientais e ações do organismo, nos perguntando sempre: “sob controle do que uma pessoa se comporta como se comporta?” Como escreveu Skinner, é como virar pelo avesso a explicação do comportamento.

–  O que é a histeria coletiva e porque ela acontece?

O termo “histeria” pode ser empregado com diferentes acepções, e foi provavelmente nos séculos XIX e XX que se tornou mais popular, quando absorvido pela literatura psicanalítica. De um modo geral, descreve um estado clínico no qual os sujeitos experimentam severos distúrbios sensoriais e/ou motores, e potencial perda de autocontrole. O rótulo “histeria coletiva” é comumente empregado para designar situações em que isso ocorre com grupos de pessoas, e mais frequentemente tem sido adotado na menção a situações que envolvem descontrole emocional coletivo intenso. Há registro de diversos casos, em diferentes momentos históricos, como o famoso episódio do convento de Loudun, na França do século XVII. Tal caso deu origem ao romance “Os demônios de Loudun”, de Aldous Huxley, que conta a história das freiras ursulinas que supostamente sofreriam possessão demoníaca (posteriormente, o padre Urbain Grandier seria responsabilizado pelo episódio). Mais recentemente, em 2007, na cidade mexicana de Chalco, houve o caso das estudantes de um internato que repentinamente apresentaram paralisia muscular, sem causa aparente. Certas explicações tradicionais apontariam supostos “desejos inconscientes” como causadores desse tipo de fenômeno (no caso da histeria coletiva, possivelmente desejos coletivamente partilhados). De uma perspectiva behaviorista radical, seria preciso indagar: sob controle do que aquilo acontece? Uma análise comportamental deve ser sempre contingencial, ou seja, levar em conta as circunstâncias nas quais cada fenômeno ocorre. É possível que os acontecimentos de Loudun e Chalco não apresentassem muito em comum para além do fato de que em ambos um amplo grupo de pessoas passou a se comportar de modo controverso, sem “causa” evidente. Em ambos os casos, no lugar de investigar os supostos fatores inconscientes envolvidos, seria importante investigar as variáveis ambientais vigentes. Em que mudou o contexto geral recente dos locais de cada acontecimento? Qual é o contexto específico em que se manifestam os “surtos” de histeria? Que tipo de consequência pode estar mantendo esses padrões? Humanos são extremamente sensíveis a atenção, sensação de pertencimento e reforçamento pelo grupo. Há inclusive experimentos que mostram que numa situação social em que sujeitos devam responder a uma questão objetiva, mesmo sabendo a resposta correta tendem a optar pela incorreta se todos em seu grupo escolherem também a incorreta. Esse pode ser um aspecto importante na análise de situações sociais complexas, como as alcunhadas de “histeria coletiva”. É importante ressaltar que não é porque supomos que o comportamento dos indivíduos é sempre mantido por consequências que acreditamos que tais indivíduos são sempre cientes disso, como se agissem deliberadamente a fim de produzir tais consequências. Desde sempre somos sensíveis às consequências: nosso comportamento é moldado em função delas, estejamos nós advertidos disso ou não. Mais que isso, frequentemente não nos damos conta de como ocorre esse processo de modelagem do comportamento: agimos muito de modo “inconsciente”, no sentido de ignorar as variáveis das quais nosso comportamento é função. Para descrever com maior clareza as variáveis de controle sob as quais agimos é necessário um esforço de análise pessoal, e não raro é a dificuldade de efetuar tais descrições que levam muitas pessoas ao consultório de psicologia.

 urbain_contrato
Em Loudun, Grandier foi condenado, acusado de travar um pacto com demônios.

 

– Os casos de histeria coletiva que pesquisei aconteciam mais no passado, sendo que atualmente é difícil encontrar casos semelhantes. Entretanto, pode-se dizer que as redes sociais são um instrumento capaz de gerar histeria coletiva nos dias de hoje? A mídia (televisiva, escrita e falada) tem poder para causar (sic) histeria coletiva nas pessoas?

Recorramos a um episódio histórico que talvez ajude a iluminar a questão: em 1938, Orson Welles narrou via rádio a obra de H. G. Wells “Guerra dos mundos”: a história de uma invasão alienígena na Terra. Conta-se que a narração de Welles provocou pânico generalizado, com pessoas desesperadas de um modo como alguns descreveriam como “histeria coletiva”. O episódio foi relativamente efêmero, pois logo muitos se deram conta de que se tratava de uma narrativa ficcional, e o pânico se dissipou. A partir desse episódio, poderíamos conjecturar sobre a eventual função das contemporâneas redes sociais no âmbito da chamada “histeria coletiva”. Por um lado, a velocidade com a qual a informação corre por elas é surpreendente: muitos incidentes são noticiados mais rapidamente via Twitter ou Facebook do que via veículos formais, como jornais e revistas (e seus websites). Boatos e factóides de veracidade não confirmada se multiplicam em progressão geométrica. Não é impossível que essa agilidade na transmissão de informações provoque, ou ao menos catalise, situações semelhantes ao acontecido em 1938. Por outro lado, essa mesma agilidade de disseminação da informação pode ajudar a prevenir mal-entendidos, e talvez isso explique em parte porque na contemporaneidade há menos relatos de casos de histeria coletiva, como você mencionou. Só a longo prazo teremos clareza do efeito das redes sociais sobre o comportamento humano de modo mais amplo. De antemão, é possível notar como a ausência de um controle face a face pode eclipsar a percepção de certas figuras como a ironia e a hipérbole: enunciados irônicos ou exagerados podem ser mais facilmente tomados como descrições factuais, e assim passados adiante, eventualmente culminando em grande confusão.

– No ano passado, a região de Campinas  sofreu com boatos de que uma facção criminosa (PCC) estava matando policiais  e teria anunciado um toque de recolher entre a população. Isso causou um alvoroço na cidade, os comércios fecharam as portas mais cedo, nos consultórios médicos as pessoas desmarcavam consultas agendadas e a imprensa só falava disso a todo momento. Podemos caracterizar este acontecimento como histeria coletiva?

Como behaviorista radical, creio que o significado de um termo ou expressão não pode ser encontrado senão por meio dos usos que tal termo ou expressão têm numa comunidade verbal. Mas se estamos preocupados em entender o ocorrido, o rótulo que lhe pespegarmos não é lá muito útil. Noutras palavras: creio que caracterizar ou não os acontecimentos em questão como “histeria coletiva” não ajuda absolutamente a compreendê-los ou a lidar com eles de modo efetivo. Mais que isso, às vezes a rotulação pode desviar nossa atenção das variáveis mais importantes a serem consideradas. Uma vez mais, a chave deve estar no contexto. De que maneira o modo como as notícias foram veiculadas, mais que as informações noticiadas, pode ter afetado o comportamento das pessoas? Será que se, ao lado de noticiar os ataques, tivessem sido sugeridas medidas mais sensatas a tomar o desfecho não seria diferente, talvez “menos histérico”? E como isso poderia ter sido feito? Essas, me parecem, seriam questões interessantes a serem feitas diante desse tipo de situação.

Uma análise comportamental, por ser uma análise sempre contingencial, exige que cada fenômeno seja analisado no seu contexto e na sua complexidade, por isso não pode prescrever uma estrutura analítica fixa que atravesse os diferentes contextos (por exemplo, nada autoriza supor que em todo caso classificado como “histeria coletiva” estão envolvidos fatores como repressão sexual, abuso ou alguma patologia secundária). Uma análise de contingências é avessa a esse tipo de universalismo. As particularidades locais precisam ser respeitadas, por isso um caso classificado como “histeria coletiva” aqui pode ter muito pouco em comum com outro acolá. O corpo conceitual fornecido por uma ciência do comportamento envolve noções como “contingências de reforçamento”, “regras, “operações motivadoras” e tantas outras que são suficientemente genéricas para a investigação de situações muito diversas. Para alguns, a explicação científica pode não parecer tão espetaculosa quanto os demônios de Loudun do século XVII, mas àqueles interessados em mudar o mundo, mais que apenas “compreendê-lo”, talvez seja esse o tipo mais espetacular de explicação possível.

Advertisements

Variedade epistemológica: a força ou a fraqueza da psicologia?

great psys

“Psicologia” ou “psicologias”: que flexão melhor representa a ciência psicológica? Graduandos em psicologia(s) não raro se surpreendem quando, ao iniciar seus estudos, se deparam com uma ampla variedade de linhas teóricas. Não é um assunto muito popular no senso comum: quando se fala em psicologia no Brasil, ainda hoje é comum a menção imediata a um grande autor, como Sigmund Freud (dada a popularidade que a teoria psicanalítica alcançou em nossas latitudes). Poucos têm ideia da quantidade de sistemas psicológicos existentes, e de como tais sistemas encerram modelos explicativos divergentes e incompatíveis, e não complementares, acerca do fenômeno psicológico.

A variedade da psicologia é, por alguns, apontada como a fraqueza dessa área de conhecimento. Epistemologias unitárias, como aquela proposta por Thomas Kuhn, encorajam esse tipo de leitura. Segundo esse ponto de vista, toda a história da psicologia acumulada até então não seria uma história da ciência psicológica, mas sim “pré-história” de um campo ainda mero candidato à condição de ciência. A coexistência de sistemas explicativos, segundo Kuhn, é comum em períodos anteriores ao estabelecimento da ciência legítima, ou, para empregar corretamente o termo kuhniano, “ciência normal”.

A convicção de que a variedade do campo psicológico é indício de sua fraqueza patrocina muitas disputas acadêmicas, em que se enfrentam os que crêem na importância do estabelecimento de sua abordagem como paradigma. Mais que demonstrar as possibilidades trazidas pela sua teoria de preferência, alguns insistem no ataque à diversidade, celebrando a unidade da psicologia desde que seu lado seja o vencedor no embate pela hegemonia. Em alguns contextos, o dogmatismo é tamanho que chega a extrapolar o ambiente acadêmico, criando animosidade e dificultando um intercâmbio de ideias civilizado. Isso reflete bem o que William James escreveu acerca do “temperamento rigorista”, e “por vezes convulsivo”, dos dogmáticos.

Mas se o dogmatismo é indesejável, o ecletismo extremado tampouco representa alternativa razoável. No limite, como critica a professora Carolina Laurenti (2012, p. 180), “…a escolha da abordagem psicológica parece circunscrita ao problema local. Sem fazer justiça à complexidade das teorias, podemos imaginar o seguinte quadro: se a demanda é por uma solução rápida de problemas, usa-se a teoria comportamentalista, já que é “superficial, atendo-se apenas ao sintoma”; mas se o problema é mais “profundo”, vale a pena recorrer à Psicanálise, ou, talvez, à psicologia fenomenológica. Se o problema é de aprendizagem, emprega-se um pouco da teoria piagetiana; se, além disso, a dificuldade demandar alguma análise social, uma “pitada” de teoria histórico-cultural parece ser uma boa medida; e, assim vai sendo cosida a colcha de retalhos da Psicologia.”

Seria possível algum equilíbrio entre o dogma de uma epistemologia unitária e a irresponsabilidade de um ecletismo extremado? O pragmatismo, uma vez mais, desponta como uma solução interessante. É curioso como muitos o invocam em vias de afirmar a importância de estabelecer uma unidade normativa na psicologia: o critério pragmático de verdade (a efetividade) poderia ser usado para filtrar da desordenada pluralidade psicológica um modelo que se mostrasse mais efetivo que os demais. Mas essa é uma apropriação extremamente parcial e deturpadora do pragmatismo, que se revela (em James, Dewey, Rorty e outros) uma filosofia do plural, e não do singular.

A “efetividade” no pragmatismo tem a ver com o alcance de certos fins. Uma teoria é verdadeira na medida em que é efetiva para a resolução de uma gama de problemas práticos. Mas cada teoria não só pode prescrever diferentes problemas como os mais importantes a serem solucionados, como também pode sugerir diferentes índices de efetividade. Se o mundo é “pelo menos um sujeito de discurso”, como defendeu James, a variedade de abordagens psicológicas reflete a variedade dos discursos possíveis sobre o mundo. A variedade, “para além do bem e do mal”, não seria censurável, tampouco louvável: seria apenas uma constatação inevitável.

Contudo, se por um lado tal variedade é concebida como fraqueza, não poderia, por outro, de algum modo ser defendida como a força da psicologia? Sobre isso, arrisco a seguinte sugestão: coexistindo de modo virtuoso, diferentes teorias desafiam umas às outras, exigindo explicações e intervenções cada vez mais ousadas. A popularidade da interpretação psicodinâmica sobre alguns fenômenos subjetivos desafia outros sistemas a formular interpretações igualmente interessantes; o sucesso de terapias comportamentais na clínica de diversas psicopatologias desafia outras a produzirem resultados “análogos”; descobertas experimentais da neurociência cognitiva desafiam demais abordagens a formular e reformular algumas de suas explicações; e assim por diante.

Também quando discutimos práticas culturais, como as relativas à(s) psicologia(s), as leis da variação e seleção parecem se aplicar adequadamente. A seleção precisa de alguma variabilidade prévia sobre a qual possa operar, e o efeito seletivo é sempre paradoxal, em alguma medida: há de haver espaço para alguma variedade no produto selecionado, ou o próprio processo evolutivo se coloca em risco. Em suma, de um ponto de vista pragmatista e evolucionista, se fosse preciso optar entre “força” ou “fraqueza” como um epíteto adequado à variedade de abordagens da psicologia, eu certamente ficaria com a primeira opção.

Faço isso convencido de que é a opção mais congruente com o ponto de vista filosófico do pragmatismo, que, mais que um método ou um critério de verdade, é uma visão de mundo. Uma compreensão ampla dessa filosofia, da qual James é um dos epígonos, pode informar e ajudar a esclarecer debates contemporâneos sobre epistemologia da psicologia. Assim, encerro com, e subscrevo a, uma observação do professor Arthur Arruda Leal Ferreira (2010, p. 190): “…de modo muito distinto da versão instrumental com que o pragmatismo se consagrou na psicologia, o que se busca retomar com James na atualidade é a possibilidade de uma concepção da psicologia que recuse qualquer operação normativa em nome de uma universalidade científica. Pois, entendida dentro de um processo de construção de conhecimento e de subjetividades, sua atuação seria por excelência ampliar (e não reduzir) o número de versões com que nos constituímos. Problematizando as formas de vida mais consagradas em que nos agarramos e liberando outras possibilidades menos correntes. Caminhando não na direção de uma universalidade, mas de um pluriverso de modos de existência. Nada mais pragmático.”

 

Referências:

FERREIRA, A. A. L. . O pragmatismo jamesiano e a psicologia: de uma relação histórica a uma ferramenta atual. Cognitio-Estudos (PUC-SP. Online), v. 7, p. 185-190, 2010.

Disponível em: http://revistas.pucsp.br/index.php/cognitio/article/viewFile/3480/3012

LAURENTI, C. . Trabalho conceitual em psicologia: pesquisa ou perfumaria? 2012 (Editorial para Revista Psicologia em Estudo (abr./jun., vol. 17, n. 2, p. 179-181)

Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722012000200001

P.S.: para quem quiser se aprofundar nesse debate, sugiro o seguinte o artigo “Epistemologia pluralizada e história da psicologia”,  do sempre excelente professor José Antônio Damásio Abib: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1678-31662009000200002&script=sci_arttext