Paradigmas, psicologias e um exemplo emblemático

Thomas Kuhn

Dentre as abordagens histórico-filosóficas da ciência, talvez aquela proposta por Thomas Kuhn seja uma das mais disseminadas. Os argumentos do autor inovaram com a introdução de conceitos como “ciência normal”, “incomensurabilidade” e “paradigma”. Diferentemente de filósofos como Karl Popper, Kuhn propôs uma abordagem menos “racionalista”: para ele, as revoluções científicas se dariam por meio da substituição de um paradigma por outro, que carregam consigo conceitos e noções incomensuráveis, e não pelo mero progresso acumulado de conhecimento objetivo. A emergência de um paradigma sofre influência de variáveis múltiplas, supostamente estranhas à ciência, como política de bastidores e lobbys ideológicos. Variáveis subjetivas e sociológicas são fatores centrais, e determinam aspectos fundamentais da atividade científica.

Kuhn (1992, p.161) questiona a suposição de neutralidade científica: “[…] a experiência dos sentidos é fixa e neutra? Serão as teorias simples interpretações humanas de determinados dados?” …segundo ele: “As operações e medições que um cientista empreende em um laboratório não são “o dado” da experiência, mas “o coletado com dificuldade”.” (Kuhn, 1992, p.161). Mas mais fundamental do que compreender este aspecto da abordagem de Kuhn é a compreensão das noções de paradigma e ciência normal. O autor define ciência normal como “pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas.” (Kuhn, 1992, p.29), ou seja, como um período em que as atividades de pesquisa se desenvolvem fundamentadas em pressupostos estabelecidos por realizações anteriores, ou, mais especificamente, pelo que Kuhn chama de paradigma.

O paradigma promove uma reorientação gestáltica (ao alterar a visão da comunidade científica sobre o mundo e os fenômenos em estudo), e lança alicerces para o desenvolvimento da ciência normal:

“Homens cuja pesquisa está baseada em paradigmas compartilhados estão comprometidos com as mesmas regras e padrões para a prática científica. Esse comprometimento e o consenso aparente que produz são pré-requisitos para a ciência normal, isto é, para a gênese e a continuação de uma tradição de pesquisa determinada.” (Kuhn, 1992, p.30-31)

Um aspecto importante da abordagem deste autor refere-se à noção de que para emergir como paradigma, uma teoria não deve estar “mais próxima da verdade” do que outra. A emergência de um paradigma está condicionada a uma aceitação consensual (ou quase), por parte da ampla maioria em uma comunidade científica, de uma perspectiva em detrimento de outras. Uma revolução paradigmática ocorre de tal maneira que não pode ser forçada: a adesão da comunidade científica ao novo paradigma parece ser uma experiência genuinamente voluntária, dada em função da potência (explicativa, preditiva, transformadora) do paradigma emergente. Além disso, o estabelecimento de paradigmas é heurístico à prática científica. Ao partilhar determinado paradigma, cientistas não necessitam explicar e fundamentar os princípios de suas práticas a todo momento. Disso se encarregarão os manuais básicos da ciência, e a pesquisa, assim, progride com maior fecundidade.

Conforme Kuhn (1992, p.31), “a aquisição de um paradigma e o tipo de pesquisa mais esotérico que ele permite é um sinal de maturidade no desenvolvimento de qualquer campo científico que se queira considerar”. Ou seja, além da função heurística que proporciona, o paradigma é considerado indício de maturidade de um campo científico. Campos que ainda não atingiram tal estágio, o paradigmático, estariam em uma fase anterior, à qual certa imaturidade seria inerente.

Um exemplo característico de campo que supostamente se encontraria em estágio pré-paradigmático é a Psicologia. Se, para Thomas Kuhn (1992, p.37), é comum que “[…] nos primeiros estágios de desenvolvimento de qualquer ciência, homens diferentes confrontados com a mesma gama de fenômenos […] os descrevam e interpretem de maneiras diversas”, a pluralidade de abordagens teóricas da psicologia poderia ser apontada como indício do seu caráter pré-paradigmático. Cabe ressaltar que a leitura kuhniana da psicologia já foi questionada, vide Carone (2003), e voltarei a esse tópico em breve.

A fim de tornar mais concreto o exposto até aqui, talvez convenha citar um acontecimento recente que, me parece, ilustra a questão de modo interessante. O embate travado entre duas perspectivas psicológicas tradicionais – a Psicanálise e o Behaviorismo Radical – apontadas como as duas primeiras grandes forças da Psicologia (Maslow, 1998), parece um exemplo que vale a pena ser mencionado. No Brasil, há algumas semanas acompanhamos um intenso debate entre psicanalistas e behavioristas radicais na Folha de São Paulo. Polêmicas relacionadas a essa celeuma são comuns há décadas, mas aqui quero invocar um episódio particular ocorrido há alguns anos. Trata-se da censura a um estudo pró-terapia comportamental na França, país de grande tradição psicanalítica.

Por solicitação de associações de pacientes, o Ministério da Saúde francês encomendou ao INSERM, um prestigiado instituto público de pesquisas sobre ciências médicas, um estudo – uma meta-análise bibliográfica, mais especificamente – sobre a eficiência de diferentes tipos de psicoterapia. “Concretamente, o estudo do Inserm concluía que, de 16 transtornos estudados, as terapias comportamentais comprovaram eficácia em 15, contra apenas 1 para a psicanálise […]” (Baqué, 2007, p.11). Apesar de a pesquisa ter sido elogiada publicamente à data de sua publicação (2004) pelo ministro da saúde, a reação da imprensa francesa nas semanas seguintes foi fervorosamente negativa e depreciativa.

O tão bem reputado jornal Le Monde, que qualificou o trabalho como “defeituoso” e “muito criticável”, não publicou a réplica que o diretor do INSERM lhe escreveu (Baqué, 2007). O estudo chegou a ser retirado do site do Ministério da Saúde em 2005, por conta de pressão política protagonizada por Jacques-Alain Miller, genro de ninguém menos que Jacques Lacan. Líder da Escola da Causa Freudiana, ele chegou a escrever expressamente em seu blog contra o informe do INSERM, e desceu ao nível da chantagem: “nunca imaginei votar na direita … não gostaria de ter que votar (Baqué, 2007, p.11).

Apesar do triunfo do lobby psicanalítico nas latitudes francesas, o caso ecoou internacionalmente, e, em 2005, a Science (vol. 307, nº. 5713, p. 1197), famoso periódico anglo-saxão, ridicularizou o episódio, em uma nota intitulada French Psychoflap. Além do deboche, a nota ainda registra a justa indignação de um dos cientistas membros do INSERM, que classificou como um “ato de censura” a remoção do estudo no site do Ministério da Saúde.

A observação de Kuhn (1992, p.35) de que “a História sugere que a estrada para um consenso estável na pesquisa é extraordinariamente árdua” parece proceder adequadamente perante a controvérsia supracitada. Esteve Freixa i Baqué, em uma breve análise da história da ciência e suas relações com a psicologia, conclui que o embate Psicanálise-Behaviorismo Radical constitui a reedição contemporânea de uma batalha secular, travada entre dualistas e monistas:

“[…] a batalha que o behaviorismo está lhes oferecendo reveste-se de um caráter muito peculiar, já que se trata de última e definitiva. De fato, se perdem também a mente, desaparece pura e simplesmente o dualismo, pela simples razão de que um dos dois elementos que o define, a saber, o espírito, mente, alma ou psique, terá sido ferido de morte e somente restará na luta o outro elemento, o corpo, o mundo físico. Em outras palavras, o dualismo se dissolve no materialismo monista se cede seu último bastião: a mente. Por isso o combate é tão feroz.” (Baqué, 2007, p. 9-10)

Esse foi um acontecimento que envolveu a esfera aplicada da ciência, e seus desdobramentos práticos: uma avaliação sobre a eficácia de diferentes abordagens terapêuticas. Mas a rivalidade no campo aplicado é apenas uma face do duelo: dissociar totalmente a esfera aplicada da teórica não parece muito razoável, afinal “uma nova teoria é sempre anunciada juntamente com suas aplicações a uma determinada grama concreta de fenômenos naturais; sem elas não poderia nem mesmo candidatar-se à aceitação científica.” (Kuhn, 1992, p.71).

O episódio francês é apenas mais uma dentre as tantas rixas que se estabelecem pela hegemonia do campo psicológico. De acordo com Kuhn, a variedade de tal campo pode ser indício de fraqueza ou imaturidade, e apenas após a emergência de um paradigma a psicologia poderia ser considerada ciência normal. Psicanálise e Behaviorismo Radical são apenas duas correntes, dentre as tantas propostas de psicologia existentes. Se uma delas despontará como paradigma dominante da psicologia um dia – ou ainda, se cada uma seguirá como ciência independente, para além da psicologia – é uma questão ainda indefinida.

Mas será mesmo que a pluralidade de abordagens da psicologia é inequivocamente um indício de fraqueza? Estou cada vez mais convencido de que a resposta é NÃO. Escreverei a respeito num post futuro.

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P.S. 1: a quem se interessou pelo episódio na França, sugiro o documentário “Le Mur”, sobre o tratamento oferecido a autistas no país. Um soco no estômago:

P.S. 2: leiam o texto do Baqué! Apesar de discordar de sua leitura monista e materialista do behaviorismo radical, a narrativa do cara sobre o episódio francês é sensacional!

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Referências:

BAQUÉ, E. F. Um exemplo paradigmático das relações conflituosas entre ciência e ideologia: a resistência ao Behaviorismo na França. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 2007, vol. 3, n.º 1.

CARONE, I. A Psicologia tem paradigma? São Paulo: Casa do Psicólogo; FAPESP, 2003.

HOLDEN, C. (Ed.) French Psychoflap. Science, v. 307, n.1197, 2005. Disponível em: <http://www.sciencemag.org/cgi/content/summary/307/5713/1197a> Acesso: 18/06/10.

KUHN, T. S. A estrutura das revoluções científicas.  3ª. ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.

MASLOW, A. H. Toward a Psychology of Being, 3rd edition. Wiley, 1998.

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3 thoughts on “Paradigmas, psicologias e um exemplo emblemático

  1. Acho interessantíssima essa discussão. Duas contribuições: nos EUA, o próprio Kuhn reconheceu (ver capítulo sobre ciências sociais, em seu livro O Caminho Desde a Estrutura) que a Psicologia (e a Economia) está praticamente uma ciência normal. Se não me engano, isso foi afirmado na década de 1980 e considerando a expansão da Psicologia Cognitiva naquelas terras, até compreendo o que o Kuhn quis dizer. A outra contribuição é: como está essa briga no Brasil? Como foi apontado no final do texto, a situação aqui está longe de ser polarizada entre psicanalistas e comportamentalistas radicais… parece existir de tudo no Brasil (até mesmo florais de Bach e associados). Por fim, uma dúvida: essas “psicoterapias comportamentais” citadas são as cognitivas? Ou os comportamentalistas radicais também entraram no mesmo saco?

    • E aí Roberto, tudo bem? Sobre a última pergunta, lembro-me que no estudo do INSERM foram eleitas diversas categorias, vou tentar achar o documento original e lhe envio (está em francês). Mas até onde lembro era uma categoria que abarcava terapia comportamental/ cognitivo-comportamental. Sobre a questão do Brasil, não sei se é exatamente diversa do resto do mundo. Mesmo nos EUA há muitos psicanalistas atuantes, e na França behavioristas, apesar da perseguição ideológica. Fico me perguntando se a psicologia não está de fato caminhando para uma pulverização em que cada abordagem terá seus paradigmas próprios, e o termo “psicologia” cairá em desuso. A leitura kuhniana da psicologia, me parece, encoraja isso. A perspectiva de uma epistemologia pluralizada, por outro lado, pode mostrar um caminho diferente (para mim, mais interessante). Falarei sobre isso daqui umas duas semanas no próximo post.

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