Um caminho estreito

nuvemrelogio

Nada é por acaso, pois tudo “está escrito”, ou nosso destino é criado por nós? Tais dúvidas, ainda hoje candentes, jazem no cerne do que William James chamou de “dilema do determinismo”. Muitos as consideram pseudoproblemas, por envolverem elucubrações metafísicas, ou seja, impassíveis de resolução definitiva via algum cálculo lógico ou experimento crítico. Particularmente, considero questionamentos desse gênero prenhes de consequências epistemológicas, éticas e políticas. Persigo e sou perseguido por questões dessa envergadura há alguns anos, e transformei-as em problemas de pesquisa na especialização, mestrado e, atualmente, doutorado. Apesar de acumular mais dúvidas que convicções, cada vez mais me convenço de algo: a eventual impossibilidade de resolução definitiva desses problemas não deveria ser usada como subterfúgio para nos esquivarmos de enfrentá-los. Afinal, o futuro está ou não está dado?

Uma vez mais, concordo com James, para quem não há outra maneira de enfrentar a questão a não ser tratá-la pragmaticamente. Qual é a diferença prática da crença ou descrença no determinismo? Diferentes consequências poderiam ser sinalizadas dos pontos de vista epistemológico, ético e político. Contudo, em vias de um esclarecimento preliminar, talvez convenha introduzir uma definição canônica de determinismo. O tema frequentemente remonta às reflexões de Pierre Simon Laplace, que em seu “Ensaio filosófico sobre as probabilidades” escreveu:

“Suponha-se (…) uma inteligência que conhecesse num dado momento todas as forças que atuam na Natureza e o estado de todos os objetos que a compõem, e que fosse suficientemente ampla para submeter esses dados à análise matemática, ela, então, poderia expressar numa única fórmula os movimentos dos maiores astros e dos menores átomos. Nada seria incerto para ela; e o futuro, tal como o passado, estaria presente aos seus olhos.” (Laplace, 1814)

O problema do “demônio de Laplace”, como ficou conhecida a inteligência descrita pelo matemático, é que parecia se tratar não de uma quimera, mas de um cientista idealizado, como sinalizou Sir Karl Popper (1988). Popular por sua proposta de demarcação científica (o falsificacionismo) e pelo contundente ataque ao marxismo e à psicanálise, Popper, por muitos considerado um “idólatra da ciência”, foi defensor do indeterminismo científico. Para ele, nem mesmo nas ciências físicas a doutrina do determinismo pode ser satisfeita. Quanto mais tivermos clareza de que teorias científicas são criações nossas, de que somos falíveis e de que nossas teorias refletem nossa falibilidade, menos propensos estaremos a crer que o mundo reflete características de nossas teorias, como sua simplicidade e seu suposto caráter determinista.

Popper se utiliza da metáfora de um filme passando pelo projetor de cinema para ilustrar o mundo determinista: a parte do filme já projetada seria o passado, e aquela a ser projetada, o futuro. O futuro seria tão fixo quanto o passado: toda “mudança” no mundo nada mais seria que ilusão de mudança, fruto de nosso desconhecimento de todas as variáveis determinantes. O discurso da “probabilidade” seria uma mera confissão sobre a ignorância de todas as causas. Não existiriam “futuros possíveis”: futuro estaria dado. O indeterminismo nada mais é que a negação dessa ideia. Admita alguma possibilidade de novidade real no mundo, conquanto pequena, e o indeterminismo se veria satisfeito. Aqui ainda trilhamos veredas metafísicas, mas o que dizer em relação ao determinismo e indeterminismo científicos?

Num artigo chamado “Sobre relógios e nuvens”, Popper descontrói a suposta relação de necessidade que existiria entre determinismo e causalidade. Muitos consideram absurda a ideia de um indeterminismo científico, por crer que a ciência não poderia abrir mão da busca das causas de seus fenômenos de interesse. Primeiramente, sequer é verdadeira a ideia de que toda explicação científica é necessariamente uma explicação causal ou que o indeterminismo exclui a causalidade, contudo o interessante aqui é grifar como o determinismo ultrapassa em muito a noção de causalidade. Para o determinista, uma vez conhecidas as condições iniciais de um fenômeno, aplicando a lei científica seria possível a descrição, com qualquer grau de precisão estipulado, do estado passado ou futuro de tal fenômeno. O indeterminista é cético diante dessa possibilidade.

Na metáfora de Popper, para o determinista, todas as nuvens seriam como relógios: mesmo um evento nebuloso como o comportamento de nuvens gasosas seria em princípio tão previsível quanto os movimentos de um relógio. Mas Popper adverte que o pensamento inverso poderia ser aplicado: e se todos os relógios forem nuvens? Se um relógio atrasa, talvez não seja impossível arriscar uma explicação causal: quiçá poeira no mecanismo seja a causa do atraso. Mas a partir da inspeção da partícula de poeira, seria possível dizer quantos minutos exatamente iria o relógio atrasar? Até que tarefas como essa fossem satisfeitas, a ideia de um determinismo científico não passa de um sonho. Seria esse um sonho que vale a pena ser sonhado?

É nesse momento, principalmente, que devem ser trazidas à baila as faces ética e política do determinismo. Será que, como afirmou B. F. Skinner (1971), não há escolha deliberada de uma pessoa por seus valores? Toda atribuição de culpa ou mérito que elaboramos seria fruto do nosso desconhecimento sobre as variáveis controladoras do comportamento alheio? Quais as consequências práticas dessa posição? E no tocante à política: se for possível descrever com precisão o estado futuro do mundo, deveria a política ser pautada pelos achados científicos? A literatura ficcional do século XX ofereceu visões distópicas do progresso tecnocientífico, como no caso “Admirável mundo novo”, de Huxley, e “1984”, de Orwell. Seriam esses cenários totalmente inalcançáveis ou meramente ainda inalcançados? Voltarei a tais questões em posts futuros.

A crença no determinismo é frequentemente justificada por ser supostamente mais heurística, pois impulsionaria o homem a buscar as causas dos fenômenos sobre os quais pretende operar. Por isso a crítica de Popper (1988) é importante e ainda tão atual: o determinismo prescreve muito mais que busca de causas, tarefa que não é interditada pelo indeterminismo. Mais que isso, o indeterminismo, ao admitir a possibilidade de novidade real, apresenta uma função motivacional particular. Na ciência já é possível notar como as hipóteses deterministas e indeterministas podem conduzir a caminhos muito diferentes. Não será diferente em relação à ética e à política.

Se for verdade que, como disse o químico Ilya Prigogine, “o futuro não está dado: vivemos o fim das certezas”, a que lugar podemos ser levados se subscrevermos a cláusula determinista? O supostamente espontâneo e o anômalo deverão, sob qualquer circunstância, ser explicados em bases deterministas em vez de probabilísticas? Nossa ação sobre o mundo poderia produzir mudanças reais, ou mesmo tais supostas mudanças já estariam, desde sempre, pré-determinadas? Talvez apenas um ulterior progresso científico permita oferecer boas respostas, e talvez não haja resolução possível para além de uma ampla avaliação das consequências práticas de cada postura. Algumas pistas têm sido trazidas por achados da termodinâmica e da teoria quântica (apesar dos muitos abusos e absurdos já derivados dela). Tais pistas sinalizam para a construção de um caminho estreito:

“O acaso puro é tanto uma negação da realidade e de nossa exigência de compreender o mundo quanto o determinismo o é. O que procuramos construir é um caminho estreito entre essas duas concepções que levam igualmente à alienação, a de um mundo regido por leis que não deixam nenhum lugar para a novidade, e a de um mundo absurdo, acausal, onde nada pode ser previsto nem descrito em termos gerais.” (Prigogine, 1996)

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s