Epicurismo, Comportamentalismo e Liberdade

jardim

Como desfrutar dos prazeres sem ser escravizado por eles? Esse é um dos problemas centrais de filosofias da liberdade e do prazer. Vulgatas da veia filosófica do hedonismo o identificam facilmente como celebração dos excessos, e satisfação absoluta dos sentidos via orgias alimentares e sexuais. Mas um olhar mais cuidadoso à obra de alguns filósofos, como Epicuro (341 a.C. – 270 a.C.), revela que nem toda filosofia do prazer a isso se resume. O epicurismo prescreve uma espécie de dietética dos prazeres, proposta prenhe de consequências para filosofias da liberdade, como é o caso do comportamentalismo radical.

No jardim de Epicuro, uma das lições era: “o prazer é o início e o fim de uma vida feliz”. Mas em que medida nós escolhemos, deliberadamente, determinados prazeres e não eles a nós? Ou, sondando uma resposta menos descritiva e mais prescritiva, como deveríamos proceder nesse tipo de escolha? Na “Carta a Meneceu”, também conhecida como “carta sobre a felicidade”, Epicuro escreve:

“Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advém efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem.”

Uma filosofia do prazer como essa desafia e é desafiada por filosofias da liberdade. O comportamentalismo radical, apesar de comumente identificado como uma filosofia que desumaniza o homem, roubando-lhe a liberdade e a dignidade, pode ser considerado uma filosofia da liberdade. Em seu Para além da liberdade e da dignidade (traduzido no Brasil como O mito da liberdade, o que em parte pode explicar a resistência a essa filosofia no país), B. F. Skinner propõe que a luta pela liberdade exige a superação da ideia ingênua de livre-arbítrio. Os organismos são sensíveis ao ambiente de tal maneira que jamais estão completamente livres de alguma forma de controle.

Do boêmio que faz fruir ao máximo o gozo corpóreo, ao asceta que vê virtude na abstinência dos prazeres mundanos, o controle é ubíquo! Já dizia Skinner: “recusar-se a aceitar o controle é meramente deixar o controle em outras mãos.” Seja se esquivando de algo ruim, operando sobre o mundo para produzir algo bom, ou ambos, estamos sempre presos às contingências, históricas ou coevas. Nos deslocamos num fluxo que é eternamente atualizado conforme novas relações se estabelecem. Não podemos parar o tempo para observar “de fora” esse processo “fluido, mutável e evanescente” (Skinner, 1953).

Mas disso resultaria a conclusão de que não há qualquer esperança de liberdade? O comportamento é relação entre organismo e ambiente, mas o controle nessa relação não é unidirecional. Como afirma a frase inaugural do Verbal Behavior (Skinner, 1957), “os homens agem sobre o mundo, modificam-no e, por sua vez, são modificados pelas consequências de suas ações”. A luta do homem pela liberdade deve prescindir da ideia de livre-arbítrio para que possa identificar sob controle de quais variáveis ele age como age. Só assim será capaz de manipulá-las a seu favor, para ir além da liberdade.

“Quando um homem se controla (…) ele está se comportando. Ele se controla precisamente como controlaria o comportamento de qualquer outro – por meio da manipulação das variáveis das quais o comportamento é função. Seu comportamento, ao fazer isso, é um objeto próprio de análise, e finalmente deve ser explicado por variáveis que se situam fora do indivíduo.” (Skinner, 1953, p. 228-229, itálico meu)

Diante das artimanhas do acaso, muitas vezes nosso poder de autocontrole e contra-controle é ínfimo. Encarar esse tipo de limitação como uma bênção ou como uma maldição é provavelmente um subproduto da história seletiva particular de cada um. Como tantas outras questões, aliás: “10 anos 1000, ou 1000 anos a 10?”, “mais vale uma vida de altos e baixos que uma vida medíocre?” Concordo com Skinner, para quem “as coisas interessantes da vida vêm dos caprichos da variação e da seleção”. De contingências adventícias podem derivar alguns dos bens mais prazerosos. Muitas vezes, é preciso resistir à impulsividade do prazer imediato breve em função de um prazer futuro maior, como propõe um dos modelos analítico-comportamentais de autocontrole. Tal modelo se combina com a prescrição epicurista em favor de uma dietética dos prazeres, além de ser um dispositivo básico à ideia de liberdade humana.

Ainda assim, sempre corremos o risco de que as variáveis críticas estejam além das nossas possibilidades de controle. Por sorte, se por um lado a evolução nos deixou uma extrema dificuldade em tolerar o desprazer, deixou-nos também uma capacidade de variação surpreendente, potencialmente infinita. Se o ambiente muda drasticamente, estejamos preparados para variar de forma igualmente drástica. Talvez a satisfação obtida por prazeres inéditos previna a busca dos paraísos perdidos. Talvez não: em tempos líquidos, talvez a insistência seja uma marginalidade que vale a pena. De qualquer forma, não estaremos mais ou menos livres numa ou noutra circunstância: apenas sob contingências que produzem sentimentos e sensações diferentes. Quanto mais agimos “sob controle das coisas”, e não do que esperamos delas, tanto mais livres nos sentimos. E aqui vem a calhar a seguinte reflexão de Epicuro sobre o futuro:

“Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.”

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