Literatura ficcional e formação moral

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O leitor (Renoir, 1874)

É factível que um dia humanidade atinja um nível de comoção diante da crueldade a ponto que isso interdite a sua realização? É nisso que apostam alguns filósofos, para os quais o progresso moral depende não de um aprimoramento da racionalidade, mas principalmente de uma progressiva expansão do nosso “sentimento de nós”. A diferença entre humanos e demais animais, desse ponto de vista, é uma diferença de grau (de complexidade), não de tipo. A ética do “animal racional”, como muitas vezes é classificado o ser humano, parece depender menos da busca por uma plataforma arquimediana moral, e mais de um certo tipo de “educação sentimental”.

Conforme Rorty (1999, p. 79), “o desenvolvimento moral no indivíduo, e o progresso moral na espécie humana como um todo, é um problema de reconstruir os selfs humanos no sentido de alargar a variedade de relações que constituem tais selfs.” O limite ideal de um processo desse gênero, um processo de contínuo alargamento das relações que constituem o conceito que as pessoas têm de si mesmas, seria aquele relativo à ideia de “santidade” do Budismo e do Cristianismo. Ou seja, um self ideal para o qual a dor sentida por qualquer ser humano seria sentida como algo extremamente doloroso para si.

Mas qual seria o lugar da literatura ficcional nesse contexto? Estudos demonstram que a literatura é capaz de ampliar a capacidade de empatia (como foi notícia recentemente, vide http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/ler_ficcao_melhora_empatia.html), o que não é novidade para muitos. Segundo Rorty, a capacidade imaginativa e redescritiva de poetas e romancistas, por ampliar nossa percepção sobre o sofrimento alheio, deveria ser melhor empregada por filósofos e educadores como ferramenta útil na criação de uma sociedade moralmente melhor. Obras como “Crime e Castigo” (Dostoiévski), “As relações perigosas” (Laclos), “O zero e o infinito” (Koestler), “1984” (Orwell), e tantas outras, talvez tenham mais a ensinar sobre ética do que qualquer estratégia racional para uma “formação moral intelectual”. Essa posição é controversa, e atacada tanto por racionalistas quanto por religiosos, ambos buscadores de uma verdade redentora.

Céticos em relação à redenção, pragmatistas dissolvem a tradicional distinção entre moralidade e prudência, e veem a filosofia não como discurso capaz de alcançar a realidade atrás do espelho, ou a Verdade grafada com V maiúsculo (supostamente capaz de iluminar o caminho da ética), mas como uma forma de política cultural. O trabalho do filósofo caminha pari passu com o de artistas ou cientistas sociais. A filosofia moral pragmatista rejeita a ideia de que progresso moral depende exclusivamente de progresso intelectual.

“A honestidade e a honradez são medidas pelo grau de coerência das histórias que as pessoas contam a si mesmas, e em que estão dispostas a acreditar. As pessoas, em sua maioria, são capazes de construir uma história sobre si em que aparecem se não como heróis e heroínas, pelo menos como boas. Isso é o que há de verdade na reivindicação de Sócrates de que ninguém faz o mal ‘conscientemente’. Mas se alguém pensa, como o cristianismo e Kant o fizeram, que as pessoas más assim o são só porque se afastaram deliberadamente da luz, então esse alguém verá a maioria dessas histórias como desonestas e depreciativas. Pensar dessa forma é inferir, como Platão fez, que a coerência não é suficiente para a bondade, para a constatar que deve haver algum recurso diferente da coerência – uma estrela brilhante a guiar-nos, visível para qualquer mente honesta.

Platão estava errado. O melhor que podemos fazer, quando fazemos escolhas morais ou políticas, ou ao decidir entre teorias científicas ou convicções religiosas, é elaborar uma história tão coerente quanto pudermos.” (Rorty, 2007, pp. 68-69)

A crítica de Rorty parece ter sido captada por romancistas como Mario Vargas Llosa que, sobre a função da literatura, disse há alguns dias: “se queremos que o mundo siga mudando, que a humanidade siga derrotando todos os grandes demônios que fazem a vida difícil ou insuportável para muita gente, necessitamos da literatura, essa fantasia que nos leva da realidade tal como é à realidade tal como queríamos que fosse.” Nada contra quem crê que na igreja ou no discurso filosófico-científico tradicional seja mais fácil encontrar um caminho seguro para suas escolhas morais. Mas àqueles dispostos a encarar a provocação pragmatista, “percam” mais tempo em livrarias ou bibliotecas… antes que os demônios voltem!

Referências:

Rorty, R. (1999). Philosophy and social hope. New York: Penguin.

Rorty, R. (2007). Philosophy as cultural politics: Philosophical papers IV. Cambridge: University Press.

*Esse texto apresenta muito brevemente parte do que desenvolvi em minha dissertação de mestrado em psicologia, disponível na íntegra aqui: http://dspace.c3sl.ufpr.br/dspace/handle/1884/31789

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2 thoughts on “Literatura ficcional e formação moral

  1. Muito interessante. Tive a oportunidade de ler Crime e Castigo e de fato vivenciei sentimentos muito intensos ao ler o livro. Senti como se os conflitos de Raskolnikov fossem meus. Assim como já me ocorreu em outras leituras.

    • Pois é Raphael, acho que todos temos personagens que “levamos pra vida”. O Rubachov de “O zero e o infinito”, o Gareth de “Os sonhos morrem primeiro”, o Felícito Yanaqué, de “O herói discreto”, todos fazem parte do meu ambiente, vêm à tona de vez em quando.

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