Nem contigo, nem contra

walt

“Se não está conosco, está contra nós!”: ideia que jaz no cerne de todo autoritarismo. A menos que partilhe dos ideais de um grupo, e lute abertamente por eles, você frequentemente é catapultado para o lado oposto. Questione o imbecil coletivo e rapidamente será taxado de marginal, traidor da causa. Sempre achei a distinção entre direita e esquerda menos importante que a distinção entre autoritários e libertários. Estes últimos sempre coexistiram à direita e à esquerda.

Alguns preferem a distinção entre libertários e coletivistas, como se qualquer um que elegesse ou a liberdade individual ou o bem coletivo como valor capital se insurgisse contra o lado oposto. Tenho dúvidas em relação a esse tipo de distinção principalmente porque ela negligencia a existência do indivíduo autoritário. Seu motto é a versão individual do anterior: “se não está comigo, está contra mim!” Um pensamento binário parece subsistir nesse tipo de raciocínio.

Particularmente, vejo o mundo como um sujeito de discurso(s). E o autoritário como aquele que crê na possibilidade de que um dos possíveis discursos sobre o mundo seja invariavelmente melhor ou mais verdadeiro que os outros, e que, por isso, tenta impô-lo sobre os demais. “A unidade do mundo tem sido afirmada apenas abstratamente, como se qualquer um que a questionasse fosse um idiota”, já dizia William James. Mas se desde cedo nosso intelecto tivesse sido treinado a observar mais as relações disjuntivas que as conjuntivas, se déssemos maior atenção à variedade que à unidade, talvez não reagíssemos com tanta estranheza ao questionamento da unidade do mundo.

Talvez um dos modos mais perversos de autoritarismo é aquele travestido de compaixão. O autoritário, por ver a si próprio como detentor do discurso que melhor reflete o mundo como ele é, anseia por libertar os pobres alienados das ilusões, e por atravessar as ideologias que sustentam as relações de dominação, ou a luta de classes, ou as contingências aversivas, ou <adicione aqui uma causa pela qual crê que vale a pena lutar>. Não duvido das boas intenções de alguns deles, tanto quanto não duvido de que a estrada para o inferno é pavimentada por elas.

Não é como se cada discurso fosse tão bom ou verdadeiro quanto qualquer outro: a diferença é que a validade de cada discurso é contingente, não absoluta. A verdade de cada um deles só pode ser avaliada de acordo com o modo como cada um ajuda produzir o que se quer produzir. “Previsão e controle”, desejarão alguns. Outros não. Dado que pessoas diferentes têm desejos diferentes, o que for melhor ou verdadeiro para uma pessoa poderá não sê-lo para tantas outras. “Acreditar em um ou em muitos: essa é a classificação com o número máximo de consequências.” – no alvo, uma vez mais, James! Muitos consideram irracional essa posição relativista. Eu a considero a melhor possibilidade de evitar o irracional instaurado pelo autoritarismo.

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