Uma lição ‘dickensniana’ de Natal

dickens

Ainda hoje uma das minhas histórias natalinas preferidas é “Um conto de Natal”, do Charles Dickens. Com Scrooge aprendi a ser mais sensível e fiel a mim mesmo, a não ter medo de reconsiderar, voltar atrás sempre que achar interessante, e não hesitar por medo de soar ridículo. Aproveitando a época para já fazer uma resolução de ano novo, espero em 2014 radicalizar ainda mais essa disposição de agir “sob controle das coisas”. Assim seja!

“Alguns riram da mudança operada nele, mas ele os deixou rir e não se incomodou. Scrooge era bastante inteligente para compreender que nada de bom se passa em nosso planeta que não comece por provocar a hilaridade de certas pessoas. E como estas pessoas são destinadas a continuarem cegas, a Scrooge tanto fazia que elas manifestassem seus sentimentos por uma gargalhada ou por uma careta.
Seu próprio coração estava alegre e feliz, e isso lhe bastava.”

A quem possa interessar, o texto completo: http://www.klickeducacao.com.br/2006/arq_img_upload/paginas/4386/contos_de_natal.pdf

Feliz Natal!

Epicurismo, Comportamentalismo e Liberdade

jardim

Como desfrutar dos prazeres sem ser escravizado por eles? Esse é um dos problemas centrais de filosofias da liberdade e do prazer. Vulgatas da veia filosófica do hedonismo o identificam facilmente como celebração dos excessos, e satisfação absoluta dos sentidos via orgias alimentares e sexuais. Mas um olhar mais cuidadoso à obra de alguns filósofos, como Epicuro (341 a.C. – 270 a.C.), revela que nem toda filosofia do prazer a isso se resume. O epicurismo prescreve uma espécie de dietética dos prazeres, proposta prenhe de consequências para filosofias da liberdade, como é o caso do comportamentalismo radical.

No jardim de Epicuro, uma das lições era: “o prazer é o início e o fim de uma vida feliz”. Mas em que medida nós escolhemos, deliberadamente, determinados prazeres e não eles a nós? Ou, sondando uma resposta menos descritiva e mais prescritiva, como deveríamos proceder nesse tipo de escolha? Na “Carta a Meneceu”, também conhecida como “carta sobre a felicidade”, Epicuro escreve:

“Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advém efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem.”

Uma filosofia do prazer como essa desafia e é desafiada por filosofias da liberdade. O comportamentalismo radical, apesar de comumente identificado como uma filosofia que desumaniza o homem, roubando-lhe a liberdade e a dignidade, pode ser considerado uma filosofia da liberdade. Em seu Para além da liberdade e da dignidade (traduzido no Brasil como O mito da liberdade, o que em parte pode explicar a resistência a essa filosofia no país), B. F. Skinner propõe que a luta pela liberdade exige a superação da ideia ingênua de livre-arbítrio. Os organismos são sensíveis ao ambiente de tal maneira que jamais estão completamente livres de alguma forma de controle.

Do boêmio que faz fruir ao máximo o gozo corpóreo, ao asceta que vê virtude na abstinência dos prazeres mundanos, o controle é ubíquo! Já dizia Skinner: “recusar-se a aceitar o controle é meramente deixar o controle em outras mãos.” Seja se esquivando de algo ruim, operando sobre o mundo para produzir algo bom, ou ambos, estamos sempre presos às contingências, históricas ou coevas. Nos deslocamos num fluxo que é eternamente atualizado conforme novas relações se estabelecem. Não podemos parar o tempo para observar “de fora” esse processo “fluido, mutável e evanescente” (Skinner, 1953).

Mas disso resultaria a conclusão de que não há qualquer esperança de liberdade? O comportamento é relação entre organismo e ambiente, mas o controle nessa relação não é unidirecional. Como afirma a frase inaugural do Verbal Behavior (Skinner, 1957), “os homens agem sobre o mundo, modificam-no e, por sua vez, são modificados pelas consequências de suas ações”. A luta do homem pela liberdade deve prescindir da ideia de livre-arbítrio para que possa identificar sob controle de quais variáveis ele age como age. Só assim será capaz de manipulá-las a seu favor, para ir além da liberdade.

“Quando um homem se controla (…) ele está se comportando. Ele se controla precisamente como controlaria o comportamento de qualquer outro – por meio da manipulação das variáveis das quais o comportamento é função. Seu comportamento, ao fazer isso, é um objeto próprio de análise, e finalmente deve ser explicado por variáveis que se situam fora do indivíduo.” (Skinner, 1953, p. 228-229, itálico meu)

Diante das artimanhas do acaso, muitas vezes nosso poder de autocontrole e contra-controle é ínfimo. Encarar esse tipo de limitação como uma bênção ou como uma maldição é provavelmente um subproduto da história seletiva particular de cada um. Como tantas outras questões, aliás: “10 anos 1000, ou 1000 anos a 10?”, “mais vale uma vida de altos e baixos que uma vida medíocre?” Concordo com Skinner, para quem “as coisas interessantes da vida vêm dos caprichos da variação e da seleção”. De contingências adventícias podem derivar alguns dos bens mais prazerosos. Muitas vezes, é preciso resistir à impulsividade do prazer imediato breve em função de um prazer futuro maior, como propõe um dos modelos analítico-comportamentais de autocontrole. Tal modelo se combina com a prescrição epicurista em favor de uma dietética dos prazeres, além de ser um dispositivo básico à ideia de liberdade humana.

Ainda assim, sempre corremos o risco de que as variáveis críticas estejam além das nossas possibilidades de controle. Por sorte, se por um lado a evolução nos deixou uma extrema dificuldade em tolerar o desprazer, deixou-nos também uma capacidade de variação surpreendente, potencialmente infinita. Se o ambiente muda drasticamente, estejamos preparados para variar de forma igualmente drástica. Talvez a satisfação obtida por prazeres inéditos previna a busca dos paraísos perdidos. Talvez não: em tempos líquidos, talvez a insistência seja uma marginalidade que vale a pena. De qualquer forma, não estaremos mais ou menos livres numa ou noutra circunstância: apenas sob contingências que produzem sentimentos e sensações diferentes. Quanto mais agimos “sob controle das coisas”, e não do que esperamos delas, tanto mais livres nos sentimos. E aqui vem a calhar a seguinte reflexão de Epicuro sobre o futuro:

“Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.”

Literatura ficcional e formação moral

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O leitor (Renoir, 1874)

É factível que um dia humanidade atinja um nível de comoção diante da crueldade a ponto que isso interdite a sua realização? É nisso que apostam alguns filósofos, para os quais o progresso moral depende não de um aprimoramento da racionalidade, mas principalmente de uma progressiva expansão do nosso “sentimento de nós”. A diferença entre humanos e demais animais, desse ponto de vista, é uma diferença de grau (de complexidade), não de tipo. A ética do “animal racional”, como muitas vezes é classificado o ser humano, parece depender menos da busca por uma plataforma arquimediana moral, e mais de um certo tipo de “educação sentimental”.

Conforme Rorty (1999, p. 79), “o desenvolvimento moral no indivíduo, e o progresso moral na espécie humana como um todo, é um problema de reconstruir os selfs humanos no sentido de alargar a variedade de relações que constituem tais selfs.” O limite ideal de um processo desse gênero, um processo de contínuo alargamento das relações que constituem o conceito que as pessoas têm de si mesmas, seria aquele relativo à ideia de “santidade” do Budismo e do Cristianismo. Ou seja, um self ideal para o qual a dor sentida por qualquer ser humano seria sentida como algo extremamente doloroso para si.

Mas qual seria o lugar da literatura ficcional nesse contexto? Estudos demonstram que a literatura é capaz de ampliar a capacidade de empatia (como foi notícia recentemente, vide http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/ler_ficcao_melhora_empatia.html), o que não é novidade para muitos. Segundo Rorty, a capacidade imaginativa e redescritiva de poetas e romancistas, por ampliar nossa percepção sobre o sofrimento alheio, deveria ser melhor empregada por filósofos e educadores como ferramenta útil na criação de uma sociedade moralmente melhor. Obras como “Crime e Castigo” (Dostoiévski), “As relações perigosas” (Laclos), “O zero e o infinito” (Koestler), “1984” (Orwell), e tantas outras, talvez tenham mais a ensinar sobre ética do que qualquer estratégia racional para uma “formação moral intelectual”. Essa posição é controversa, e atacada tanto por racionalistas quanto por religiosos, ambos buscadores de uma verdade redentora.

Céticos em relação à redenção, pragmatistas dissolvem a tradicional distinção entre moralidade e prudência, e veem a filosofia não como discurso capaz de alcançar a realidade atrás do espelho, ou a Verdade grafada com V maiúsculo (supostamente capaz de iluminar o caminho da ética), mas como uma forma de política cultural. O trabalho do filósofo caminha pari passu com o de artistas ou cientistas sociais. A filosofia moral pragmatista rejeita a ideia de que progresso moral depende exclusivamente de progresso intelectual.

“A honestidade e a honradez são medidas pelo grau de coerência das histórias que as pessoas contam a si mesmas, e em que estão dispostas a acreditar. As pessoas, em sua maioria, são capazes de construir uma história sobre si em que aparecem se não como heróis e heroínas, pelo menos como boas. Isso é o que há de verdade na reivindicação de Sócrates de que ninguém faz o mal ‘conscientemente’. Mas se alguém pensa, como o cristianismo e Kant o fizeram, que as pessoas más assim o são só porque se afastaram deliberadamente da luz, então esse alguém verá a maioria dessas histórias como desonestas e depreciativas. Pensar dessa forma é inferir, como Platão fez, que a coerência não é suficiente para a bondade, para a constatar que deve haver algum recurso diferente da coerência – uma estrela brilhante a guiar-nos, visível para qualquer mente honesta.

Platão estava errado. O melhor que podemos fazer, quando fazemos escolhas morais ou políticas, ou ao decidir entre teorias científicas ou convicções religiosas, é elaborar uma história tão coerente quanto pudermos.” (Rorty, 2007, pp. 68-69)

A crítica de Rorty parece ter sido captada por romancistas como Mario Vargas Llosa que, sobre a função da literatura, disse há alguns dias: “se queremos que o mundo siga mudando, que a humanidade siga derrotando todos os grandes demônios que fazem a vida difícil ou insuportável para muita gente, necessitamos da literatura, essa fantasia que nos leva da realidade tal como é à realidade tal como queríamos que fosse.” Nada contra quem crê que na igreja ou no discurso filosófico-científico tradicional seja mais fácil encontrar um caminho seguro para suas escolhas morais. Mas àqueles dispostos a encarar a provocação pragmatista, “percam” mais tempo em livrarias ou bibliotecas… antes que os demônios voltem!

Referências:

Rorty, R. (1999). Philosophy and social hope. New York: Penguin.

Rorty, R. (2007). Philosophy as cultural politics: Philosophical papers IV. Cambridge: University Press.

*Esse texto apresenta muito brevemente parte do que desenvolvi em minha dissertação de mestrado em psicologia, disponível na íntegra aqui: http://dspace.c3sl.ufpr.br/dspace/handle/1884/31789

Nem contigo, nem contra

walt

“Se não está conosco, está contra nós!”: ideia que jaz no cerne de todo autoritarismo. A menos que partilhe dos ideais de um grupo, e lute abertamente por eles, você frequentemente é catapultado para o lado oposto. Questione o imbecil coletivo e rapidamente será taxado de marginal, traidor da causa. Sempre achei a distinção entre direita e esquerda menos importante que a distinção entre autoritários e libertários. Estes últimos sempre coexistiram à direita e à esquerda.

Alguns preferem a distinção entre libertários e coletivistas, como se qualquer um que elegesse ou a liberdade individual ou o bem coletivo como valor capital se insurgisse contra o lado oposto. Tenho dúvidas em relação a esse tipo de distinção principalmente porque ela negligencia a existência do indivíduo autoritário. Seu motto é a versão individual do anterior: “se não está comigo, está contra mim!” Um pensamento binário parece subsistir nesse tipo de raciocínio.

Particularmente, vejo o mundo como um sujeito de discurso(s). E o autoritário como aquele que crê na possibilidade de que um dos possíveis discursos sobre o mundo seja invariavelmente melhor ou mais verdadeiro que os outros, e que, por isso, tenta impô-lo sobre os demais. “A unidade do mundo tem sido afirmada apenas abstratamente, como se qualquer um que a questionasse fosse um idiota”, já dizia William James. Mas se desde cedo nosso intelecto tivesse sido treinado a observar mais as relações disjuntivas que as conjuntivas, se déssemos maior atenção à variedade que à unidade, talvez não reagíssemos com tanta estranheza ao questionamento da unidade do mundo.

Talvez um dos modos mais perversos de autoritarismo é aquele travestido de compaixão. O autoritário, por ver a si próprio como detentor do discurso que melhor reflete o mundo como ele é, anseia por libertar os pobres alienados das ilusões, e por atravessar as ideologias que sustentam as relações de dominação, ou a luta de classes, ou as contingências aversivas, ou <adicione aqui uma causa pela qual crê que vale a pena lutar>. Não duvido das boas intenções de alguns deles, tanto quanto não duvido de que a estrada para o inferno é pavimentada por elas.

Não é como se cada discurso fosse tão bom ou verdadeiro quanto qualquer outro: a diferença é que a validade de cada discurso é contingente, não absoluta. A verdade de cada um deles só pode ser avaliada de acordo com o modo como cada um ajuda produzir o que se quer produzir. “Previsão e controle”, desejarão alguns. Outros não. Dado que pessoas diferentes têm desejos diferentes, o que for melhor ou verdadeiro para uma pessoa poderá não sê-lo para tantas outras. “Acreditar em um ou em muitos: essa é a classificação com o número máximo de consequências.” – no alvo, uma vez mais, James! Muitos consideram irracional essa posição relativista. Eu a considero a melhor possibilidade de evitar o irracional instaurado pelo autoritarismo.