Ciência: escolha triste?

criação

Há alguns anos, tarde da noite no campus, num dos saudosos saraus da Universidade Estadual de Maringá, o papo era sobre crenças e religião. À pergunta “em que você crê?” hesitei um pouco antes de responder: “não sei…  na ciência, provavelmente”. “Escolha triste!”, avaliou o interlocutor. Muita coisa mudou desde então, especialmente nas minhas concepções sobre ciência e religião, mas ainda hoje aquilo ressoa de tempos em tempos. Por que seria triste a escolha pela ciência?

Primeiramente, que lógica subjaz à ideia de que entre ciência e religião é imperativa uma “escolha”? Essa é uma questão que jamais me ocorreria naquela época. Houve um tempo em que eu não duvidava do privilégio do discurso científico sobre os demais. Pensava que somente esse tipo de conhecimento, purificado pelo método que extirparia as crenças, os preconceitos e as lembranças, seria capaz de atravessar o véu das aparências para acessar a profunda essência dos fenômenos. Minha posterior incursão pela história e filosofia da ciência demoliu essa crença rapidamente.

Ainda assim, persistia um certo incômodo sempre que eu refletia sobre as (im)possibilidades de sustentar crenças religiosas e científicas simultaneamente. Foi quando comecei a estudar pragmatismo, e me dei conta de que o erro seminal era mais primitivo do que eu supunha. Tal erro é acreditar no conhecimento, seja ele científico ou religioso, como uma forma de representação da realidade. “É essa a grande doença da filosofia!”, já dizia um sábio mestre.

Concordo com Rorty, para quem “a ciência, a religião e as artes são instrumentos para a satisfação de desejos. Nenhuma dessas áreas pode ditar, embora qualquer uma delas possa e deva sugerir, quais desejos ter ou qual hierarquia avaliativa erigir.” Esse ponto de vista substitui as metáforas da descoberta pelas metáforas da criação: o que supomos descobrir, inventamos. Na ciência, nossas invenções geralmente seguem parâmetros: capacidade de previsão e controle, falseabilidade e replicabilidade foram sugeridos por alguns, para que outros também possam se aproveitar do conhecimento produzido. Por isso a ciência é uma forma necessariamente humilde (a despeito da pouca humildade de muitos cientistas) de conhecimento.

Mas retornando à questão inicial, em que isso influencia a reflexão sobre a ciência e a tristeza? Creio que meu interlocutor supunha que para evitar a tristeza seria preciso sustentar crenças menos mundanas que as científicas: crenças que pudessem colocar-nos em contato com algo superior, talvez divino. Groucho Marx disse: “todos precisam crer em algo, e eu creio que vou tomar uma cerveja!” Eu creio na ideia de que todos cremos, mas creio que cremos de maneiras muito diversas. Uns creem que a única crença verdadeira é aquela que os leva às essências, e que só ela poderia iluminar o caminho para a felicidade.

Outros, e sou desses, são céticos em relação a isso, e apostam em estratégias como a redescrição em vez da descoberta. Não fazem isso por supor que a descoberta é uma jornada longa demais para ser trilhada, mas porque notam como mesmo os autoproclamados “descobridores” nada mais fazem que redescrever. Estão inventando histórias sobre o mundo que substituem outras histórias, e não narrando os fatos imparcialmente. Alguns se sentem felizes por crer que sua fé religiosa os coloca em contato com a verdade das verdades; outros se sentem felizes por crer que apenas a ciência o faz. Eu não consigo crer numa coisa nem noutra, mas creio na importância de defender que as pessoas que assim creem tenham suas crenças respeitadas.

Finalmente, não considero que a crença na ciência implica escolher a descrença na religião, tampouco que tal crença é um caminho triste. Para mim o que define a ciência em contraste com demais tipos de conhecimento (como o religioso e o artístico, cujas funções são outras) é que ela me auxilia a operar sobre o mundo de modo muito particular. Satisfazendo os desejos que for capaz de satisfazer, a ciência pode ajudar a ser feliz tanto quanto pode ajudar a ser infeliz. Ela me ajuda a compreender o impacto de fatores randômicos e incontroláveis, ajuda a contra-controlar muito do que é nefasto, ajuda a me autocontrolar quando é preciso tolerar breves desprazeres em busca de prazeres maiores, ajuda a ver regularidades onde aparentemente só há aleatoriedade, e ajuda a trazer o futuro para o presente, sem aniquilar o passado. Religião e arte satisfazem outros desejos, igualmente importantes para mim. Não melhores ou piores, mas diferentes.

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